O Rock Nacional Morreu e teve show Sertanejo no Enterro

O sertanejo substituiu o rock como a música consumida pela juventude brasileira. Se esta frase fosse escrita no começo dos anos 90, seria considerada ficção escatológica, mas na atualidade é a mais Pura Realidade.

Exaltasamba Anuncia Pausa na Carreira

Depois de 25 Anos de uma Carreira Brilhante e de Muito Sucesso, o Grupo Exaltasamba anuncia que vai dar uma 'Pausa' na Carreira.

Discoteca Básica - Aviões do Forró Volume 3

O Tempo nunca fez eu te esquecer. A primeira frase da primeira música do Volume 3 do Aviões doForró sintetiza a obra com perfeição: um disco Inesquecível.

Por um Help à Música Sertaneja

Depois de dois anos, João Bosco e Vinicius, de novo conduzidos por Dudu Borges, surgem com mais um trabalho. Só que ao invés de empolgar, como foi o caso de Terremoto, o disco soa indiferente.

Mais uma História Absurda Envolvendo a A3 Entretenimentos

Tudo começou na sexta-feira, quando Flaviane Torres começou uma campanha no Twitter para uma Espécie de flash mob virtual em que os Fãs do Muído deveriam replicar a Tag #ClipSeEuFosseUmGaroto...

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segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Chimbinha, o nosso Guitar Hero Brazuca

Texto escrito pelo meu amigo Vladimir Cunha e gentilmente cedido a este nobilíssimo Cabaret

Encostado na parede, já meio baqueado por várias latas de cerveja e algumas caipirinhas, observo tudo de longe, buscando um certo distanciamento enquanto, no estúdio, roadies e técnicos acertam a luz e o som para a gravação do Estúdio Coca-Zero MTV – Calypso e Paralamas do Sucesso. A credencial de imprensa me dá acesso livre. Não que, nesse momento, isso signifique muita coisa, pois fico zanzando de um lado para o outro, meio sem ter o que fazer enquanto espero o show começar. Entrevista só se for na coletiva.

Se tivesse dado tudo certo, você teria lido essa matéria em outubro de 2008. Era para ser um perfil de uma página de Joelma e Chimbinha para a Rolling Stone. O que explica a minha credencial de imprensa pendurada no pescoço e o direito de fazer duas perguntas na coletiva. Mas estranhos são os caminhos do showbusiness brasileiro e a banda, sabe-se lá porque, não conseguiu fazer a foto encomendada pela revista, o que foi adiando a matéria indefinidamente.

Situação bem diferente de quando encontrei Chimbinha pela primeira vez em 1999 nos estúdios do Xodó, uma casa noturna na saída de do Pará. Tinha me demitido do jornal onde trabalhava e andava num miserê desgraçado. Fui salvo pelo Pedro Só, que me pediu uma matéria de oito páginas sobre a cena brega pop paraense para a Showbizz, quando oito páginas em uma revista de circulação nacional era grana pra cacete. Naquela época, apesar de ainda andar de ônibus, Chimbinha era o session man mais requisitado da então emergente cena brega local. À noite ralava nas casas noturnas da periferia de . De dia, gravava até três discos de uma vez só. No currículo, a fama de ser o melhor guitarrista da cidade e de, com menos de 30 anos, ter mais de mil álbuns com a sua assinatura.

Não é exagero. Eu vi. O homem era uma máquina de gravar. No tempo em que passei com ele, matou dois discos em uma manhã. Funcionava assim: Chimbinha se plantava o dia inteiro no estúdio com seus músicos, já conhecidos como Banda Calypso. O sujeito chegava com as letras e as cifras das músicas debaixo do braço. Chimbinha dava uma olhada, passava as notas para os camaradas e começava a gravar.

Primeiro fazia uma levada simples, que geralmente valia logo no primeiro take. Depois incorporava mais três levadas de guitarra: uma meio aparentada do ska, uma com a mão direita abafando as cordas e um dedilhado limpo que lembrava a surf music, segundo o próprio guitarrista resultado das influências de Mark Knopfler e Mestre Vieira, inventor do estilo amazônico-caribenho conhecido como guitarrada.

Bingo. Estava pronto mais um sucesso do brega pop paraense.

Assim Chimbinha e Joelma foram levando a vida. Gravando discos de dia e se apresentando nas casas noturnas à noite. Ainda nos encontramos uma última vez no ultra-calorento camarim da Pororoka, um galpão reformado na periferia de Belém que, na época, junto com o Xodó, era uma espécie de Factory do brega-pop.

Se você tinha uma banda, queria fazer parte de uma cena e se dar bem como astro brega, lá era o lugar para estar. Se caísse no gosto da rapaziada, tava feito. Como é comum em Belém do Pará, naquela noite a casa tinha escalado cinco bandas. Uma atrás da outra, com a Calypso ensanduichada no meio. No camarim de oito metros quadrados, músicos e dançarinas trocando de roupa meio atrapalhados, esbarrando uns nos outros, as paredes de azulejo encardido molhadas de tanto suor e umidade.

Mal consegui trocar duas palavras com a banda e sai fora antes da Calypso tocar a terceira música. Quase dez anos depois, reencontro Chimbinha em outro camarim. Dessa vez mais luxuoso, com ar-condicionado, espelho de corpo inteiro, banheiro privativo, mesa de frios e outras mordomias.

São quase dez anos. Nesse tempo o Xodó foi demolido e em seu lugar construíram um Habib’s. E a cena brega-pop foi passada para trás no processo de seleção natural da música pelo desbunde digital gangsta do tecnobrega. Bem fez Chimbinha, que, junto com Joelma, se mandou para o nordeste logo que o negócio em Belém começou a fazer água para dar início aos seus planos de dominação mundial.

“Pô, tu não é aquele cara da revista Showbizz que me entrevistou lá em Belém?”, pergunta Chimbinha no início da “coletiva”, que na verdade acabou se resumindo a mim e a mais dois repórteres.

“O próprio”

“Me lembro de ti. Mas porra, tu não tinha essas tatuagens todas não”, continua ele rindo.

Aproveito a disposição do rapaz em quebrar o gelo e pergunto logo se a parceria com duas mega-corporações – e logo depois de um acústico para a Som Livre – não complica a vida da Calypso como a maior banda independente do Brasil.

Chimbinha nem se abala. Dá um sorriso de Gato de Alice e desenrola aquela fala mansa de caboclo ribeirinho.

“Olha, cara, Coca Zero, disco pra Som Livre…É legal de fazer? É. Principalmente esse aqui com os Paralamas, uma banda da qual sou fã. Mas são parcerias nossas com essas empresas. Os donos das músicas, da banda Calypso, ainda somos eu e Joelma. Depois que a gente fizer isso aqui, vamos voltar para o nosso esquema de gravação e distribuição, que é totalmente independente”.

“Então nada de gravadora?”

“GRAVADORA? Pra que? Olha só: porque eu iria pagar para uma empresa distribuir e vender as minhas músicas se, hoje em dia, eu mesmo posso fazer isso? Gravadora não serve pra nada. Só para tirar dinheiro da

gente. Não me faz falta de jeito nenhum”.

“E a pirataria?”

“Aí já é diferente. A pirataria é péssima”, responde Chimbinha meio irritado.

“Mas ajuda as bandas da cena tecnobrega de Belém…”

“Ajuda e não ajuda, né?”

“Porque?”

“Porque o compositor acaba sendo prejudicado, porque a banda não ganha com as vendas de CDs e DVDs, porque a pirataria não paga direito autoral…”

“Por outro lado as bandas ganham com shows”

“Nem todas, né? E mesmo as que ganham…como fica o compositor? Eu pago todos os meus compositores. É tudo registrado, legalizado, recolhemos direito autoral…”, continua o guitarrista até ser interrompido por um produtor informando que a gravação já vai começar.

Eu ainda queria perguntar se a Calypso NUNCA havia se beneficiado com a pirataria e se teria chegando tão longe não fosse a milenar arte chinesa da reprodução não-autorizada. Lembro de um amigo ligado à área da música, carioca, que se informa sobre o que está rolando na música popular brasileira através do fornecedor de DVDs e CDs piratas do porteiro do seu prédio. E do meu pai que, morando em Porto Alegre, descobriu em um camelô que existia uma banda paraense de sucesso nacional.

OK, ele mesmo grava e prensa seus discos, licenciando a sua venda para distribuidores locais e regionais. Ou mesmo vendendo-os em seus shows a preços populares. Mas é difícil acreditar que a súbita popularidade da Calypso e a disseminação da sua música pelo Brasil aconteceriam sem o auxílio da economia informal. Chimbinha pode até detestar a pirataria, mas ela lhe adora.

E na proporção inversa à raiva que o guitarrista sente ao ver as verdinhas batendo asas cada vez que alguém compra um disco pirata seu, mais e mais CDs e DVDs da Banda Calypso entopem as bancas dos camelôs. Seja em São Paulo, Luzilândia ou Belém do Pará.

A gravação termina. No palco a química entre a Calypso e os Paralamas funcionou que foi uma beleza. O que a música da banda tinha de simplório foi melhorado por Herbert, Bi e Barone, que se apropriaram das canções da dupla para recriá-las a partir de elementos de reggae, ska e hard rock, deixando Chimbinha solto para tocar guitarra e, em troca, meter o bedelho nas composições do trio.

Ele se aproveita e usa a sua matriz criativa brega-pop para fechar as conexões afro-caribenhas abertas pelos Paralamas ainda nos anos 80, como se Al Anderson se juntasse a Mestre Vieira para queimar um fumo com Fela Kuti em uma jam session na casa de Pinduca.

sábado, 3 de setembro de 2011

Banda Uó, uma lição de vida e os caminhos do novo pop brasileiro

O texto seguinte foi escrito por Vladimir Cunha, provavelmente a algumas horas atrás e provavelmente sob o efeito de muita cerveja. Mas é um texto lindo. Esta jóia foi postada no Facebook, nem pedi autorização para a reprodução, mas não creio que ele vá invocar. Vladimir é jornalista freelancer e cineastar. É dele a direção do filme Brega S/A que pode ser assistidona íntegra no final da postagem. Boa leitura!

Banda Uó, uma lição de vida e os caminhos do novo pop brasileiro

Eu e DJ Maluquinho, um dos inventores do tecnobrega, começamos a encher a cara desde cedo. Daí o nosso estado precário quando a Banda Uó subiu ao palco para encerrar o primeiro Eletronika Belem.

O sujeito estava começando a ficar meio perigoso, quase sem conseguir andar direito, tropeçando nas próprias pernas, mas esperto o suficiente para roubar umas latas de cerveja da área vip do festival quando se ligou que o bar ia fechar e perigava da birita já não rolar tão fácil.


Mas nada que o impedisse de entrar de bicão na discotecagem de Rodrigo Gorky, o gordinho nerd que descobriu que podia ser alguém quando inventou o Bonde do Rolê e embalou o funk carioca para o resto do mundo.


Bonde do Rolê, Banda Uó...diversas encarnações da obsessão de Gorky em dialogar com a música da periferia brasileira. Primeiro o funk. Depois o tecnobrega de camisas xadrez, bonés de grife e bigodes propositalmente cafonas, como se tudo o que a música de massa brasileira já produziu terminasse em ironia.


O show acaba, mas ninguém sai do palco. A discotecagem de Gorky começa. Depois de um tempo sumido, Maluquinho dá as caras novamente. Olho para o sujeito e penso “caralho, esse filho da puta tá tão doido que se mijou todo”.


“Que porra foi essa, rapá?”, pergunto.

“O que?”.

“Isso aí na tua calça”.

“Ah, porra, é que deu merda”.


Pra minha surpresa, ele mete a mão no bolso e tira uma lata de cerveja toda amassada, que havia acabado de estourar dentro das suas calças. Ele ri, bebe um resto que havia ficado no fundo e joga a lata no chão.


Maluquinho pode até ser meio doido, mas não é burro. Fica parado um tempo observando Gorky discotecar e me pergunta de onde ele é. Digo que não sei. Maluquinho fica quieto. Mila, hit dos meus tempos de axé no bloco do Shopping Picanha, causa uma comoção inesperada e transforma a pista do Eletronika em uma micareta hipster.


“Porra, Vladimir, tu sabe qual é o problema desses DJs da burguesia?”, me pergunta Maluquinho já emendando a resposta, “O problema deles é que eles não falam no meio da música. Eles não mexem com a galera, não mandam abraço, não pedem palmas, não sabem interagir”.

“Então vai lá em cima e pega o microfone, porra”, respondo.


Mal termino a frase e Maluquinho já está no palco. Dago Donato faz a ponte e logo parece que Maluquinho e Gorky são parceiros de longa data. O que era apenas uma discotecagem vira um acontecimento que dificilmente será esquecido por quem foi à primeira noite do Eletronika Belém.


Porra, Maluquinho é puta velha e sabe de trás para frente todos os truques que fazem a massa se remexer. Gorky entra na onda e logo manda umas bases espertas na medida para Maluquinho improvisar uns tecnobregas, mandar abraços pras meninas, pros casados, pros solteiros, para as bichas e para as vadias. A rapaziada aprova a presepada e invade o palco. A temperatura sobe e a inibição diminui. Meninas rebolam, um rapaz tira a roupa e fica só de cuecas. House vagabundo, Alceu Valença, Chiclete com Banana, funk carioca e tecnobrega. Gorky e Maluquinho no comando da sacanagem. É hora de gritar “vai, vai, vai”. É hora de rolar o treme-treme. É hora do sexo e da safadeza. “Pega fogo cabaré”, grita Maluquinho relembrando uma expressão antiga dos puteiros da zona boêmia de Belém. Dá certo. O cabaré pega fogo e a festa vira uma zona. Eu roubo uma cerveja de Gorky e encontro André Paste emocionado por finalmente ver um astro tecnobrega em ação. Dago ensaia uns passos de dança. Um casal se joga no chão e simula uma cena de sexo. Bonde do Rolê e Banda Uó dançam. Todas as conexões possíveis que um festival como o Eletronika poderia supor sendo estabelecidas ali, naquele momento. Do palco, localizado de frente para a Baía do Guajará, vejo a zona portuária da cidade, o berço de todas as interseções culturais de Belém desde o final dos anos 50, quando os primeiros discos de merengue e os primeiros rádios solid state chegaram à cidade através da rota de contrabando estabelecida a partir do Caribe e das guianas.


Ninguém agüenta mais. Mentira, as pessoas agüentariam sim. Só que a festa precisa acabar. Maluquinho quer beber mais, puxa um bolo de notas de cem do bolso e sai perguntando onde dá pra comprar whisky. Roubo a chave da sua moto e mando ele pegar um táxi, já meio preocupado que aquela noite termine em tragédia, afinal ninguém quer assistir ainda ao nascimento do James Dean tecnobrega. O salão se esvazia aos poucos. Ir embora pra que? Mas já deu, daqui o pouco é outro dia.


São seis da manhã no mercado do Ver-O-Peso. Na Barraca da Carioca, espero ela fritar um filé de dourada enquanto bebo a última cerveja da noite e a primeira da manhã. Os raios de sol começam a aparecer por detrás dos casarões antigos do centro comercial de Belém quando uma discussão atrai a minha atenção. Dois feirantes brigam. O negócio fica feio, o clima pesa. Um feirante puxa uma faca peixeira e parte pra cima. Eu, que já me preparava para sangue, tragédia e um corpo no local, respiro aliviado quando tudo o que rola é bate-boca, ânimos apaziguados e a turma do deixa disso.


O clima volta ao normal e enquanto como o filé de dourada com uma providencial coca-cola fico pensando na noite de hoje e em uma frase que Marcos Maderito, principal MC da Gang do Eletro, havia falado horas antes enquanto debatíamos o futuro do tecnobrega. “A galera tem que se tocar que o futuro já está acontecendo”, disse ele quando perguntado sobre a importância do estilo hoje. Caralho, eu jamais achei que fosse viver para ver Marcos Maderito e William Gibson alinhados em uma mesma corrente de pensamento. Afinal foi o escritor canadense de ficção científica quem disse, em 1993, que “o futuro já está acontecendo”.


Na volta pra casa, largado no banco de trás do táxi, fico ruminando a frase de Maderito. Penso nas implicações do futuro ser agora, da possibilidade de apropriação de uma revolução tecnológica e apolínea na construção de uma nova configuração de realidade mais dionisíaca e interessante. Volto ao Ver-Peso, à imagem de dois feirantes que comiam ao meu lado enquanto trocavam os últimos lançamentos do tecnobrega via Bluetooth. É um novo momento, malandro, sagaz e otimista, como Maluquinho e Maderito, e não pessimista e angustiado, como Bruce Sterling e William Gibson. O táxi percorre as ruas do centro comercial de Belém. Vou levar pelo menos uns 40 minutos para chegar em casa. Mesmo bêbado e cansado, ainda consigo me sentir feliz, com a certeza de que o futuro não é mais como era antigamente.


Brega S/A - O filme

BREGA S/A from Gustavo Godinho on Vimeo.

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