A fênix é um pássaro da mitologia grega que, quando morria, entrava em auto-combustão e, passado algum tempo, renascia das próprias cinzas. Não sei se o guitarrista Wagner Pekois - único remanescente da formação original - sofreu alguma espécie de queimadura grave, mas ele segurou as pontas depois que todos os outros membro do Grupo Tradição picaram a mula, repetindo a atitude de Michel Teló. A banda foi reduzida a cinzas mas ele persistiu, escalou uma trupe de jovens músicos e eis que a banda ressurge das cinzas, mais bela e mais forte do que antes, calando a boca de muita gente que tinha decretado seu fim.

Tal decreto não era de todo sem fundamento. O Tradição tinha mais de uma década de carreira, praticamente com a mesma formação desde que era uma banda do circuito dos bailes, tocando por horas a fio. O carismático cantor Michel Teló era a própria imagem da banda. Tanto que logo após ele sair, eles fizeram uma mini turnê pelos Estados Unidos e foram hostilizados por desavisados que pensavam se tratar de uma fraude.
Só que a persistência dos dois Wagners - o guitarrista e o empresário Wagner Braga Hildebrand, criador da banda - aos poucos foram gerando frutos. Primeiro descobriram na banda gaúcha Os 4 Gaudérios dois irmãos extremamente talentosos, o cantor Guilherme e o baterista Leonardo. Do grupo sul matogrossense foram recrutados o sanfoneiro Jefferson e o baixista leandro. Com o percussionista Marcio, fecharam a formação e sairam em turnê pelo sul do país, aperfeiçoando o repertório e a sinergia do grupo.
Foram dois anos de tentativa e erro, os dois discos que lançaram de lá pra cá eram indecisos e irregulares, mas mostrava uma banda em busca da redescoberta de sua própria identidade. A gravação do DVD no primeiro semestre era a prova e provavelmente a última chance de voltarem a serem uma banda relevante no competitivo e saturado mercado atual da música sertaneja. Era tudo ou nada. E eis que essa semana lançam o DVD, intitulado Tô de Férias, gravado no Balneário de Camburiú e surpreenderam até os mais céticos. Enquanto a maioria dos artistas sertanejos adotaram um comportamento de manada, reproduzindo fórmulas em prol do sucesso fácil, o Tradição buscou em si o que os diferenciava do resto todo.

Já na faixa de abertura, evocam no ouvinte aquela saudade dos antigos discos que ele nem lembrava mais que sentia. Um ritmo contagiante, dançante que invoca a alegria e a festa. Logo em seguida emendam dois hits certeiros, o recente "Ingrata" que teve boa execução nas rádios locais e "Barquinho", sucesso do tempo de Michel Teló e que foi trilha da novela global América. A sequência de inéditas que se segue é irretocável, com o Tradição fazendo o que sabe de melhor, apartir da sanfona criada à base de chimarrão gaudério do vanerão, a inserção de elementos de axé, do forró e até de arrocha.
Eles conseguem soar tradicionais e modernos ao mesmo tempo, sem em momento algum soar forçado. A prova mais cabal são os dois pot-pourri que sucederam o lindíssimo dueto com a cantora Amannda na música "Eu tenho você". Primeiro dois modões de raiz que explicita o domínio técnico dos músicos, que a exceção de Pekois, todos com menos de 20 anos. Depois uma micareta com introdução de uma vinheta eletrônica, a cargo do DJ paulista, atualmente residindo em Uberlândia, Minas Gerais, Dan Rocha.
O segredo para que a peteca não caia nunca durante o show está na definição da sequência do repertório. Por exemplo, depois dessa ousada micareta eletrônica, um classico do antigo repertório "Eu tô bebendo todas" e depois mais inéditas, sempre intercalando dançantes com românticas. Do segundo caso "Beijo na chuva" com participação do novato Jairinho Delgado já nasce clássica. Sobre as participações cabe uma observação, eles não chamaram nenhum figurão para impulsionar as vendas, pelo contrário, Amannda, Jairinho e Felipe moro ainda não são conhecidos do grande público.
Os Pot-Pourris parecem que são mesmo uma das especialidades do Tradição. Mais uma vez eles se superam, primeiro resgatando dois clássicos da dupla Leandro & Leonardo: "Temporal de amor" e "Você vai ver" para depois atacar de "Moda de Bailão" e "Barulho da sanfona", musicas de bailão capazes de mover estátuas.
Quando o show se encaminha para o final, a grande supresa da noite. E não é que o baterista Leonardo também compões e canta bem? O reggaezinho "Te espero", composto com Jeffinho, o "Sanfoneiro Cachorrão", tem potencial pra emplacar em qualquer FM de música pop. Até neste aspecto a nova formação conseguiu resgatar - com o perdão do trocadilho involuntário a tradição do grupo, que era ter vários bons cantores na formação. Além de Guilherme, Pekois e Leandro, o baterista manda bem no microfone.
Como toda obra-prima que se preze, o final é daqueles de arrancar lágrimas de emoções até dos mais turrões, e confesso aqui que foi o meu caso. A emoção de todos os presentes no palco salta aos olhos e a história que envolve essa música e o próprio show fez com que o momento fosse ainda mais intenso.
Eles sempre tiveram o hábito de encerrar seus discos ao vivo com alguma canção gospel. O dia do show estava se aproximando e eles ainda não tinha a canção para o encerramento. Foi um técnicos de som chamado Janderson, que também arranha como cantor, apresentou um rascunho. Apartir dali a criação foi coletiva, com cada um dos meninos acrescentando uma frase aqui, outra acolá e a música ficou pronta praticamente no dia do show.
Ocorre que depois de uma semana inteira de tempo bom e de um dia inteiro de sol, horas antes da gravação um temporal se abate sobre Camboriú. Era como se o mundo desabasse sobre a alma de todos os envolvidos na produção. Foi quando o empresário Hildebrand lembrou-se de eventos semelhantes na época da gravação do primeiro DVD Micareta Sertaneja, penitenciou-se por sua pouca fé e fez suas preces. E a chuva passou, dando a todos os membros da banda o sentimento de garra e determinação que transparece nas imagens de todo o show e culmina na última música.
É emocionante ver Guilherme não conter as lágrimas ao cantar "Mais que vencedores", todos com os olhos úmidos e o nó na garganta é praticamente visível a olho nú. Quando a música acaba e os créditos sobem, uma enxurrada desaba dos céus, sem que o público demontre o mínimo de sinal de arredar o pé pra fugir da chuva. O final perfeito para um show perfeito. A imagem do cantor Guilherme se jogando no chão do palco, enxarcado pela chuva entrará para a história, assim como esse disco. Numa escala de zero a dez, a única nota que me vem na cabeça é onze.