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segunda-feira, 27 de julho de 2009

Chimbinha - O líder da Calypso não fica parado e já pensa em reinventar outra vez o negócio da música

Pessoal, essa entrevista do Chimbinha foi publicada nas páginas negras da Revista Trip na edição de março deste ano. Peço desculpas a vocês por republicar com tanto atraso. O texto é longo, mas vale a pena. Tem passagens hilárias, como aquela em que Chimbinha revela a origem de seu apelido. Não vou contar aqui para não estragar a surpresa. Podem copiar e colar a entrevista em seus blogs (como o Timpinho aqui está fazendo) para divulgar ainda mais a história da Banda Calypso, Grande Banda Brasileira da Década.




À frente da banda Calypso, o guitarrista Chimbinha criou um gênero musical e um inovador modelo de negócios - sem precisar das gravadpras, da TV, dos críticos. Na maior crise da história da indústria fonográfica, vendeu 12 mihões de discos, tornou-se o artista mais popular do Brasil ao lado da mulher, Joelma, e virou caso de estudo para analistas da nova economia. No aniversário de dez anos de sua banda, Chimbinha não fica parado e já pensa em reinventar mais uma vez o negócio da música

Na infância, Chimbinha era um peixe. Nascido em Oeiras, interior do Pará, com o nome de Cledivan Almeida Farias, ele morava do lado de um rio e passava o dia na água, nadando perto de tambaquis, tucunarés, dourados, filhotes. Adolescente, virou peixeiro. Foi morar em uma invasão da capital Belém com a família e trabalhar na feira com o pai. Já adulto, depois do sucesso à frente da Banda Calypso, tornou-se
gourmet de pescado. Em sua casa em Alphaville, prepara peixes para amigos como Zezé di Camargo, Leonardo e Bruno (da dupla com Marrone) –, que, como ele, estão entre os artistas mais populares do país. Ele pode discorrer longamente sobre os hábitos naturais e as virtudes culinárias de cada peixe – herança dos tempos de rio e de feira no Pará, não uma ostentação de novo rico.

O antropólogo Hermano Vianna enxerga na trajetória de Chimbinha “um símbolo incrível das mudanças pelas quais o Brasil está passando”. Mais até do que o torneiro mecânico que se tornou presidente. “A ascensão política de Lula é produto de alianças entre vários grupos sociais diferentes. Chimbinha se fez sozinho, sem gravadoras, sem televisão, sem elogios da crítica”, afirma.

No percurso, o guitarrista inventou um novo estilo musical, uma fusão de ritmos que ele batizou de calipso; e tornou-se um músico louvado por muitos colegas (leia depoimentos à pág. 7), mas ainda visto com preconceito por quem rotula de brega seu som e suas roupas. De quebra, Chimbinha criou um inovador modelo de negócios.

Sem o apoio de gravadoras, deu CDs para as rádios de poste de Belém (que transmitem em alto-falantes nas ruas da cidade) tocarem suas músicas, enviou pelo correio discos para o Brasil todo, depois fechou acordo com uma distribuidora que os repassava diretamente a lojas e camelôs, vendeu milhares de
cópias em shows e supermercados. “A ideia não foi minha, foi ideia da necessidade”, resume Chimbinha.

Na pior crise da indústria fonográfica, a Banda Calypso vendeu ofi cialmente mais de 12 milhões de CDs e 3 milhões de DVDs, lotou estádios no Brasil todo, tornou-se o grupo mais popular do país segundo pesquisa Datafolha e foi citado no livro Free!, de Chris Anderson, editor da revista americana Wired,
como exemplo de ponta da nova economia.

Ao completar neste ano uma década de Calypso e de casamento com a cantora Joelma, Chimbinha não dá pinta de descansar sobre os louros da glória. Além de um disco novo lançado em janeiro e de uma coletânea prevista para o fim do ano, ele planeja fazer turnê com os Paralamas do Sucesso (com quem tocou em um evento no ano passado), plantar um pé em Hollywood (a banda gravou uma versão em inglês do hit “Acelerou”, batizada de “Accelerate my heart”, para a trilha de um filme americano), lançar uma TV da banda na internet. E, sobretudo, ele quer reinventar o modelo de negócio da banda.
Uma possibilidade é distribuir CDs de graça para quem comprar um ingresso do show.

Workaholic assumido, ele telefona diariamente a rádios de todo o Brasil para convencer os donos a tocar as novas músicas do Calypso, mesmo depois das toneladas de discos vendidos. Em meio às férias no mês passado, gravou três discos – um de sua banda, dois de amigos – varando as madrugadas. Foi em meio a seu atarefado retiro, em sua nova casa em Ananindeua, cidade colada a Belém, que Chimbinha recebeu a
Trip para um almoço farto e uma conversa franca, um dia antes de seu aniversário de 35 anos.



Desta vez, ele deixou o fogão ser pilotado pelo chef paraense Manuel Rodrigues – que costuma levar de avião, de Belém a São Paulo, os peixes oferecidos nos jantares aos amigos da música.
O almoço em Ananindeua foi uma versão menos sofisticada, mas não menos saborosa, dos banquetes de Alphaville.

Entre os itens do cardápio, dourado grelhado e açaí – que Chimbinha come salgado, com farofa, durante a refeição. “Vamos aproveitar que a Joelma não está aqui para atacar o açaí”, ele diz, brincando com as restrições da mulher às calorias da fruta amazonense.

À mesa, estão amigos, parentes e músicos de sua banda, as pessoas com quem ele se sente mais à vontade. “Não gosto de coisas muito glamorosas. Outro dia eu fui receber um prêmio na MTV de guitarrista dos sonhos’. Eu me perguntava: ‘Meu Deus, o que estou fazendo aqui, será que esse é meu mundo?’. Me senti um peixe fora d’água.”

Como foi sua infância no interior do Pará?
Foi muito boa e difícil ao mesmo tempo. Eu tinha uma família muito humilde. Meu pai trabalhava numa serraria, minha mãe era dona de casa. Nós somos sete irmãos. Não foi fácil para meu pai sustentar todo mundo. Quando viemos para Belém, eu já tinha uns 10 anos. Fomos morar numa invasão, tipo uma favela. Aí papai foi trabalhar na feira como vendedor de peixe e eu fui ajudá-lo.

A música já tinha entrado em sua vida nessa época?
Desde que eu me entendo por gente, eu já estava com o violão na mão. Meu irmão Pedro era músico. Ele foi a pessoa que eu ouvia tocar todos os dias. Quando ele deixava o instrumento, eu pegava e ficava tocando. Meu irmão tocava rock, mas eu já sabia que gostava de música caribenha, das lambadas internacionais que tocam no Pará.

Como essas músicas caribenhas chegavam até você?
Pelas rádios AM. Lá no interior não pegava FM. Minha avó tinha um rádio grande. Ela tentava sintonizar as estações, ficava chiando até parar na música. Às vezes era rádio do Caribe, da Guiana Francesa. Não pegava rádio do Sul. A gente ficava ouvindo música o dia todo, até tarde da noite. Aquilo foi entrando na minha cabeça.

E acabou influenciando na sua música?
Influenciou na minha vida toda. Hoje a Banda Calypso existe por conta dessa influência que vem de criança. Até hoje eu ouço rádio AM para escutar essas músicas, até hoje elas me inspiram.

Era seu irmão quem lhe ensinava as notas ou você aprendia sozinho?
Com uns 10 anos de idade, já comecei a tirar música sozinho. Eu escutava no rádio, ia pegando e tocando em cima do que eu ouvia. Bastava ouvir duas vezes e eu já sabia tocar. Mas, quando a música era mais difícil, quando tinha alguma nota dissonante, ele me ensinava. Com 12 anos, comecei a tocar numa banda de baile por indicação do meu irmão. Mas continuei trabalhando na feira com meu pai. De dia eu ia pra feira, à tarde ia pro colégio, dormia um pouco; quando dava meia-noite, eu já estava na festa tocando. Estudei até a sexta série. Muito pouco, né?

Você já tinha responsabilidade de levar o dinheiro pra casa?
Tinha. De comprar o material escolar dos meus irmãos, a comida lá de casa. Meu pai perdeu três dedos, ficou difícil trabalhar, e ele tem problema de vista. Eu tinha que trabalhar. Era tipo o chefe da casa, como até hoje.

E o apelido Chimbinha, de onde surgiu?
Rapaz, isso é complicado para falar. [risos]. Ai, meu Deus do céu. Eu vou contar. O povo me chamava não era de Chimbinha, era de bichinha [risos]. Era moleque, tocava com essa banda em uma boate. a gente chamava assim antes, não sei nem como chamam hoje.

Puteiro?
Deve ser. A gente tocava muito nesses bares onde as mulheres iam fazer programa. Eu era molequinho mesmo, era mais novo que meu filho [que tem 12 anos]. O dono da banda mandava as mulheres darem em cima de mim, de brincadeira. Eu ficava triste, chorava muito. Daí ele me chamava de bichinha. Teve um dia que falei que não ia mais tocar. Daí ele disse que ia mudar meu apelido para Chimbinha. Eu gostei. Chimbinha é carinhoso. Depois é que eu descobri que Chimbinha é trocadilho de bichinha. Mas aí o apelido já tinha pegado.

O que vocês tocavam na banda?
Banda de baile tem que tocar tudo que está na moda. Na época, era Roupa Nova, Zé Ramalho, Sandra de Sá, Alceu Valença, Elba Ramalho, José Augusto. De internacional, a gente tocava o que estava nas rádios: Brian Adams, Rod Stewart, Dire Straits, U2 [começa a lembrar as músicas no violão: “Every Breath You Take”, do Police, “Sweet Child of Mine”, do Guns N’ Roses, “Alagados”, do Paralamas].

E quando você passou da banda para o estúdio?
No finzinho dos anos 80, começo dos 90. No começo foi difícil para pegar os clientes. O sucesso na época era a lambada, e já havia uma banda muito boa de Belém que dominava as gravações. A gente só gravava aqueles cantores que não tinham condição de gravar com eles. Mas, numa dessas, um cantor com
que eu gravei estourou. Foi o Roberto Vilar. Daí o povo começou a me chamar para gravar e a vida da minha família melhorou um pouco. Nós ainda morávamos na favela, mas já tinha chegado água e luz. Só não dava para comprar uma casa ainda.

Eu li que você participou de uns mil cds como guitarrista.
Por aí. Não tenho o número exato. Tocava todos os ritmos que pedissem. E não gravava só aqui. Gravava em Recife, Fortaleza, Manaus. Eu fiquei de 90 até 99 no estúdio, gravando dia e noite sem parar. Entrava nove da manhã e saía às três da madrugada todos os dias.

Carga puxada para um garoto, né?
Muito puxada. E até hoje eu sinto isso, porque não consigo dormir. Eu me adaptei com essa vida. Hoje durmo muito pouco. Quando eu consigo dormir quatro horas é uma vitória.

Mas você não sente falta de ter feito mais coisas na adolescência? De dançar com as garotas, em vez de tocar no palco?
Não, eu gostei de tudo. Se tivesse que voltar, faria tudo igual. Foi muito bom. Aprendi muito. Mas teve muito sacrifício, não estudei do jeito que meu pai queria. O sonho dele era ver a gente formado. Mas
hoje ele é feliz, porque a gente pode lhe dar uma vida que ele nunca sonhava. Se eu fosse formado em direito, por exemplo, não sei se seria um bom advogado. Porque eu gosto muito do que eu faço. Eu nasci para ser músico e tocar isso que eu toco.

Como você saiu do estúdio para criar a Banda Calypso?
Em 99 um amigo meu, o Kim Marques, me apresentou à Joelma, que queria gravar seu primeiro disco e precisava de um produtor. Eu ouvi o repertório e não gostei das músicas. Comecei a correr atrás de letras com a Joelma, a fazer música com meus parceiros. Foram dois ou três meses até encaixar um repertório bom. Nesse tempo, nós começamos a namorar. Quando chegamos ao estúdio, eu fiz a proposta de a gente fazer uma banda. E a Joelma topou. Ela disse: vamos botar o nome de Calypso, que vocês usam
muito no estúdio. Mas eu disse que o nome era muito difícil, o povo não ia acertar. Daí um dia chega um amigo meu, o Bispo Júnior, e diz: “Chimbinha, eu achei o nome pra tua banda: Calypso! Todo mundo fala que tu é o rei do calipso”. Falei pra Joelma: “Esse nome é bom mesmo”. Ela reclamou que estava sem moral, mas ficou Calypso. No começo, os locutores chamavam de Colapso, Calistro, Calypson, e pensavam que a gente era banda de forró. Deu um trabalho do caramba pro povo assimilar. Mas hoje todo mundo sabe o que é a Banda Calypso, que calipso é um ritmo. Quer dizer, é uma mistura de muitos ritmos que a gente chama de calipso. Vamos completar dez anos de banda, e a gente mesmo não sabe qual é o som que a gente tira.

Mas quais ritmos você identifica no som da banda?
A gente usa um pouco do carimbó, lambada, merengue, cacicó, zouk e até uma pitada do calipso caribenho. Tem uma percussão meio afro. Eu não sabia o que era o kuduro. Quando eu fui para Angola tocar, ouvi o ritmo e disse: “A gente toca isso desde criança. O Calypso toca sem conhecer”. A gente também vai muito em cima do rock, a caixa do twist com uma guitarra do chacundum, outra guitarra de reggae, outra de funk. Coloco sempre duas, três, quatro guitarras em cada música. Quando a gente vê a soma, tá um som legal pra caramba.

E onde que entra a guitarrada? É influência também?
É sim. Foi o mestre Vieira quem inventou. Ele pegava a música caribenha e solava a melodia com a guitarra no lugar da voz. Ouvi muito ele. Também sou fã do Aldo Sena. Era meu mestre e depois virou parceiro. Mas minha guitarra também tem outras influências, como o Renato, dos Blue Caps, e o guitarrista que acompanhava o Roy Orbinson. Misturei tudo isso e botei a minha pegada.

E o processo de conquista da Joelma, como é que foi?
Quando vi a Joelma pela primeira vez, eu não falei com ela. Era muito tímido. Eu pensei: “Será que ela é uma pessoa boçal? Eu não vou falar nada para ela não me tratar mal”. Passei reto. Depois ela disse que pensou a mesma coisa de mim: “É muito boçal, nem fala direito com a gente!”. Aí o Kim convidou a gente para almoçar um camarão com açaí num restaurante aqui de Belém. Ele saiu para atender o telefone, eu fiquei na mesa sozinho com a Joelma, e ela começou a conversar comigo. Quando fui levá-la em casa, ela me convidou para fazer o repertório do disco. Eu morava longe demais, e o ônibus ia só até nove da noite. Se perdesse, era só no outro dia às seis da manhã. Eu acabei dormindo na casa dela e fui ficando. Quando vi já tava junto. Foi assim que aconteceu. E estamos juntos até hoje, graças a Deus.

Em Belém existem as rádios de poste, que ficam tocando música em alto-falantes na rua. Eu ouvi dizer que elas foram muito importantes para vocês no começo da carreira. Como foi essa história?
Eu me emociono quando me lembro disso. Esses dias agora andando em Belém. passei numa rua e comecei a chorar. De felicidade, de alegria, mas também daquele sofrimento que eu passei no começo. A gente morava na Cidade Velha, num quartinho de quatro por quatro, só tinha uma cama e um fogão. Quando a gente lançou o primeiro disco, eu falei: tenho que parar de gravar como músico de estúdio para divulgar esse CD. Eu saía de casa cedo, às sete da manhã. Não tinha dinheiro pra comer, passava o dia tomando água. Também não tinha dinheiro para pegar ônibus, então ia a pé para as rádios. Se você visse as distâncias, ia ter pena de mim [risos]. Mas não tinha como eles tocarem a gente. Porque, pra tocar numa rádio, ou você está muito estourado ou então você tem que fazer promoção.

Pagar jabá?
Não chegava a ser jabá, porque não tinha grana. Era armar uma promoção com o diretor da rádio, por exemplo comprar mil camisetas pra sortear. Mas eu estava sempre liso. Não sabia mais o que fazer. Um dia, quando eu ia para casa, eu escutei essas rádios de poste tocando música. Aí tive um estalo. Passei
a divulgar nosso disco nessas rádios. Daí a cidade todinha começou a tocar a Banda Calypso nos postes.
Em menos de três meses, estavam todas as rádios normais tocando também. Porque as pessoas que ouviam no poste ligavam e pediam nossa música. Eu distribuí de graça 50 mil CDs do nosso primeiro disco, para loja, carro de som, rádio de poste, pro público. Aí a banda estourou no primeiro disco. A gente fazia show e não ficava com o dinheiro. Sobravam R$ 2, 3, 4 mil por semana, a gente fazia CD e dava pro povo.

Você está falando das rádios. Mas antes disso você deve ter batido à porta de muitas gravadoras para lançar o disco, né?
É, esse disco eu mandei pra muita gravadora. Quando a banda estourou, eu fui numa gravadora famosa de São Paulo. O diretor me perguntou: “Por que você não me mandou um disco desses para eu lançar?”.
Eu respondi: “Eu mandei, procura aí que chegou em outubro de 99”. A secretária foi pesquisar e viu que tava lá o disco. Não era pra ser. Se eu tivesse lançado o disco com uma gravadora, não teria dado tão certo, porque tem artista com mais prioridade, eles não iriam trabalhar tão bem.

O cara da gravadora deve ter se arrependido, porque perdeu muito dinheiro.
Muitos se arrependeram. Eles já me falaram. Agora tenho amigos nas gravadoras. E acho que tá difícil hoje a gravadora sobreviver com essa pirataria. A gente mesmo, que é independente e não tem tanto investimento quanto uma gravadora, já está sofrendo. Antigamente a gente tirava tudo da venda do CD, hoje tira do show. A gravadora ainda paga produtor musical, um cara para escolher repertório, outro para fazer arranjo, paga a divulgação. Então as gravadoras foram muito prejudicadas. Se não tomarem uma medida contra a pirataria, eu não sei aonde isso vai chegar.

Mas a piataria não ajudou a divulgar a Banda Calypso no começo?
Olha, é difícil falar mal da pirataria porque eu fui ajudado por ela. Mas no nosso começo não existia essa pirataria de internet que tem hoje, de baixar música de graça. Na época a pirataria era só de CD. Isso ajudou bastante a gente. Mas hoje a gente lança o disco, amanhã tão baixando. Atrapalha as vendas. As pessoas não sabem o quanto a gente investe, mesmo sendo independente. Para vender por R$ 9,99 para o consumidor final, temos que vender para a distribuidora por um preço muito mais barato. Temos que pagar os direitos autorais dos compositores, os músicos, o estúdio, a arte. Hoje nós temos mais de 200 funcionários, temos que funcionar como uma gravadora e cuidar da divulgação. Tudo dessa parte quem administra sou eu. Então todo o dia fico falando em três telefones. Quando tá difícil tocar em todas as rádios, eu sofro muito. Aí eu vou visitar o diretor da rádio, peço uma força, volto outro dia. Até que eu consigo.Isso até hoje?
Hoje é que eu faço mais.

Depois de vender 12 milhões de discos?
Agora é que é a hora. Há alguns anos, o povo tinha que tocar Calypso porque tava fervendo mesmo. Hoje, tem rádio que não toca.

Muita gente diz que a Banda Calypso inventou um novo modelo de negócio, com essa história de não ter gravadora, de vender disco em show ou em supermercado, de fazer distribuição via camelôs. Esse esquema foi ideia sua?
Foi uma ideia da necessidade. Eu não parei para bolar. Fui fazendo. Como não tinha gravadora, era a gente que fazia a distribuição no começo. A Joelma ficava no telefone tirando os pedidos. Eu ia no correio e mandava pro Brasil todo. Começou assim.

Esse modelo acabou sendo imitado por muitas bandas, principalmente aqui no Pará, não é?
A maioria dos artistas daqui faz isso. Hoje não existe gravadora no Norte e no Nordeste, só no Rio e em São Paulo. Então tivemos que fazer isso aqui para viver de música, porque as gravadoras foram embora daqui. E, se continuar desse jeito, elas vão embora do Brasil.

Você soube que um jornalista americano chamado Chris Anderson, editor da revista Wired, citou a Banda Calypso no livro Free!, sobre a economia gratuita?
Nunca ouvi falar. Mas que coisa boa. É muito bom esse modelo. Acho que os artistas mais conhecidos também podiam fazer, como Zezé di Camargo, a turma da MPB. Na hora em que um deles de nome entrar, vai dar uma força para a gente continuar mais alguns anos com esse modelo.

Você acha que não vai durar muito mais?
Acho que esse modelo deu certo por dez anos. Mas já está mudando. Hoje ninguém consegue vender disco em loja. Algumas bandas já fazem o seguinte: na compra de um ingresso para o show, leva um CD de graça. Esse é o modelo que estão usando.

O Calypso vai usar também?
Não sei. Se fecharem as lojas todas, vamos ter que fazer isso.

A crise atingiu o Calypso?
A gente tá trabalhando menos porque nós quisemos. Nasceu a Yasmin, meu filho precisa muito de mim nesse momento, porque tá entrando na adolescência. A gente precisa viver mais um pouco. Antes a gente
fazia 25 shows por mês, hoje a gente faz 16. Ainda é muita coisa. A gente toca de quinta a domingo, toda semana. Tem terça e quarta para resolver as coisas da banda e outros negócios. A Joelma tem loja de roupa, fábrica de roupa. Eu tenho uma pequena fazenda no Pará, onde estou criando gado.

Vocês começaram a estourar no começo do anos 2000, mas só chegaram à TV há uns três anos. Por quê?
Eu não queria nem fazer televisão no começo, eu queria era mostrar a cara da banda. Quando nós estouramos, todo mundo conhecia nosso som, mas ninguém conhecia minha imagem ou a da Joelma. Aí começaram a surgir bandas piratas se passando por nós. Às vezes me ligavam e diziam: “Hoje tem show
de vocês aqui em Goiânia!”. Eu dizia: “Não, meu amigo, estou com show marcado hoje em Pernambuco”. E o cara: “Mas eu estou vendo a faixa de vocês, o nome de vocês”. Aí eu ia lá ver e era uma banda se passando por nós, com uma loira e um rapaz na guitarra. Daí a Joelma falou: ou a gente vai para a televisão ou tem que criar uma marca. Deixa eu pintar uma coisa aqui no teu cabelo, como o Pepeu Gomes fez no começo da carreira.

Então foi ela quem inventou a famosa mecha loira?
É. Mas eu não gostava daquilo de jeito nenhum. Fiquei uns seis anos com a mecha, injuriado. O pessoal falava: a Banda Calypso é aquela com o menino da mechinha. Mas não teve jeito: os outros fizeram, virou moda. E não resolveu. Então falamos: “Agora temos que ir pra TV”. Mas, rapaz, foi difícil chegar. Fizemos dois programas do Raul Gil, mas não foi o suficiente. Quando lançamos o terceiro disco, fomos convidados várias vezes para o programa do Gilberto Barros na Bandeirantes. Daí o povo começou a conhecer nossa imagem no Brasil. Depois de um tempo fomos convidados para fazer o Faustão. Eu me emocionei muito, porque a gente já tinha vendido mais de 5 milhões de cópias e ainda não tinha ganhado disco de ouro, de
diamante. Aí a fábrica que prensou os discos fez uma homenagem pra gente no Faustão.

Vocês precisaram vender 5 milhões de cópias para serem notados pela TV?
É, fizemos dois anos de Gilberto Barros até sermos chamados pelo Faustão. Fomos chamados pela Globo quando vendemos 600 mil cópias de DVD e 1,2 milhão de CDs em um só mês.

Foi preconceito que a banda sofreu?
Sofre até hoje.

O preconceito vem da chamada elite intelectual, que rotula vocês de brega?
É isso. Tudo no Brasil que atinge a massa, que mexe com o povão, que leva a multidão, é brega para essa turma que se diz elite, mas queria estar no nosso lugar. Não é nem odiar, é ter inveja do trabalho, porque não conseguiu chegar lá.

Você fica chateado quando os críticos dizem que a música do Calypso é de má qualidade?
Nunca ninguém falou isso na minha cara. Se falarem, eu vou respeitar a opinião do cara. Tem muita coisa de que eu não gosto, mas tiro o chapéu. Não gosto de metal nem de tecnobrega. O sujeito faz um jingle no computador falando o nome de sua aparelhagem e toca nas próprias festas, nos carros de som, aluga rádio pra tocar também. Deixaram de tocar a gente. Eu não curto muito esse som de coisas eletrônicas. Gosto de música com instrumentos. No tecnobrega, o jingle virou a própria música. Mas eles fazem sucesso, e o sucesso tem que ser respeitado.

Em uma pesquisa recente do Datafolha, a Banda Calypso foi apontada como a banda mais popular do Brasil, na frente de Zezé di Camargo e Luciano. Como vocês receberam essa notícia?
Primeiro ligou o rapaz da Folha de S.Paulo dizendo que queria fazer uma matéria com a gente. Daí eu me perguntei: “Será que isso aí é uma pegadinha?”. Eu falei pro repórter: “Tô gravando agora, daqui a pouco eu ligo pra você”. Em seguida me telefona o Zezé e diz: “Chimbinha, você é o artista mais popular
do Brasil, e eu tô colado em ti!”. Aí vi que era verdade. Quando o cara ligou de volta, dei a entrevista, porque já tinha garantia.

Eu li que seus melhores amigos na música são Zezé di Camardo, Leonardo e Bruno (do Bruno & Marrone). Você se identifica com essas figuras que saíram do nada e ascenderam socialmente pela música?
É a mesma história, a mesma conversa. A gente fala das coisas da roça, da época de baile, brincamos, fazemos piada. Isso é que é bom. Não fomos criados em berço de ouro. Não temos aquela viagem. Às vezes, quando o cara é de um nível social diferente, com um conhecimento diferente do meu, ele fica
viajando, e a conversa não bate.

Você acha que eles falam de cima para baixo?
Eles querem ser diferentes da gente, superiores. Mas com esses meus amigos é o mesmo padrão, o mesmo nível, a mesma linguagem. Todos somos felizes com o que aconteceu nas nossas carreiras, agradecemos muito a Deus.

Além da fama, o sucesso trouxe bastante dinheiro. Vocês têm casas em Alphaville, Belém, Recife. Têm fazenda, já tiveram avião. Como você lida com esse dinheiro que entra?
Do dinheiro que a gente ganha, metade ou mais é para reinvestir no trabalho. A gente tem hoje um bom ônibus para transportar a banda e vários cenários para apresentar um show bonito. O dinheiro também é para cuidar da nossa família e ajudar algumas pessoas que a gente acha que merecem. Nós temos um trabalho social, mas não gostamos de divulgar.

No mês passado, surgiu uma história curiosa na Internet, dizendo que vocês foram recomendados para o Nobel da Paz.
Nós não fomos informados disso. Fui saber aqui em Belém. Ligou um cara para nosso escritório se dizendo bispo, querendo indicar a gente como embaixadores da paz. Não era o Nobel, mas de repente virou isso. Mandei o nosso pessoal investigar quem é o cara. Pode ser que estejam querendo usar o nome da banda, porque ele tá querendo comprar nosso show no Mangueirão. Acho que é uma roubada. O cara deve estar se passando por bispo para comprar nosso show mais barato.

Você acha que seus filhos, que vivem com todo o conforto, vão valorizar o que eles têm hoje tanto quanto vocês?
A gente sempre conversa com eles, mostrando como a gente era antes e o que Deus está nos Proporcionando hoje. Eu espero que eles deem valor, porque foi tão difícil chegar, e é ainda mais difícil se manter.

Você imagina o Calypso durando quanto tempo?
Enquanto eu tiver vida, enquanto eu estiver neste mundo.

O Calypso depende da dupla Chimbinha e Joelma. Se algum dia o casamento terminar, a banda acaba?
Nunca pensei nisso. Nem é bom pensar. Nós nunca brigamos. Eu sou muito calmo. Quando tem uma discussão, eu saio. Quando volto, está tudo calmo. Nos momentos em que a banda passa por uma situação difícil, como quando caiu nosso avião [em novembro passado, matando o produtor e o piloto da banda], um dá força para o outro. Se um dia, Deus nos livre, acontecer alguma coisa, a banda vai passar alguma
dificuldade, mas não vai acabar não, porque a gente ama a banda. Ela é a nossa vida, tanto a minha quanto a dela. É uma missão. E nosso trabalho ajuda muita gente. Minha família precisa da banda, a família dela também. Só se for uma coisa muito grave mesmo, o que é difícil acontecer. Eu vivo pra Joelma, ela vive pra mim, e a gente vive pra banda.

A Joelma é admirada por muitas pessoas, desejada por muitos homens. É difícil ser casado com uma musa?
O público tem um respeito grande pela gente, por saber que a gente é casado. Nunca ninguém faz gracinha com a Joelma quando ela tá no palco. E ninguém faz comigo.

O pior momento da banda foi a queda do avião?
Nós passamos alguns momentos difíceis. Você sabe. trabalhar com o ser humano é complicado. A gente tem dois, três dias de folga por semana. Aí os meninos da banda estão livres para fazer qualquer coisa. Numa dessas folgas, em 2006, o pessoal começou a beber, e um dançarino da banda caiu da sacada de um hotel e faleceu. Aquele momento foi muito triste. A gente estava indo pros Estados Unidos fazer o Brazilian Day e tinha o compromisso de tirar o visto. Não deu para ir ao enterro dele. Aí alguns desses programas de fofoca na TV ficaram a semana toda condenando a gente. E depois o outro momento difícil foi a história do avião. Foi pesadíssimo. Perdi dois amigos, dois funcionários. O produtor que morreu era meu braço direito, vivia 24 horas comigo. Eu fiquei arrasado. Até hoje não consigo falar. Nós tivemos que refazer a casa das pessoas onde caiu o avião. Eu não quis esperar a perícia. Falei: “Vamos ajeitar logo, imagina ficar sem casa”.

Você é religioso?
Eu creio muito em Deus. Eu ia muito à igreja evangélica. Agora com o trabalho fico até sem tempo, então a gente faz nossos cultos aqui em casa. Tem uns irmãos que oram com a gente, de vez em quando vêm uns pastores.

Você viveu muito na noite. Nunca experimentou drogas?
Não, porque eu andava com pessoas muito humildes. Além de não terem condição de comprar, eram Pessoas com família de base muito religiosa. Quase todo mundo que tocava comigo era evangélico. E na Banda Calypso também é assim até hoje. Não tinha espaço pra droga. Eu fui beber depois dos 20 anos. Tomar cerveja, uísque. Mas depois parei com isso, só tomo vinho. Foi o médico que me receitou, e eu acabei gostando.

Você se considera um guitar hero?
Não. Eu nem me considero um bom músico. Não estudei. Toco muito de ouvido. Quando vou gravar e o pessoal fica lendo partitura, fico com muita vergonha. Todo mundo com seus arranjos, e eu vou criando a levada na hora. Só sei ler cifra. Vou cifrando ou escuto de primeira e de segunda já vou gravando.

O estúdio é o lugar onde você se sente mais realizado?
Quando eu estou no estúdio, esqueço de tudo. Desligo o telefone e me concentro mesmo. Quando estou aqui fora, é funcionário que te colocou na Justiça, a música que não está tocando, a carreta que não saiu
com o equipamento. No estúdio parece que não existem problemas. Pode estar o mundo se acabando que eu estou em paz.

CHIMBINHA É.
Reportagem de Caio Ferretti

“Um guitarrista virtuoso em termos técnicos e que não mergulhou nos clichês que a guitarra elétrica oferece. Ele conseguiu trazer o instrumento para um outro ambiente, um estilo mais popular, natural e funcional. Incorporou elementos saborosos de questões caribenhas e africanas que fazem você traçar
um mapa cultural mais colorido da música.”
HERBERT VIANNA, GUITARRISTA

“Eu não faço a menor ideia de quem seja esse cara. O que eles tocam? Axé?”
EDGARD SCANDURRA, GUITARRISTA

“Ele é um representante dos guitar heroes no Brasil. Ele trouxe para o pop brasileiro um estilo único. No Brasil a guitarra vem muito do violão, do cavaquinho, do bandolim. Já o estilo do Chimbinha não vem do Jorge Ben, do João Gilberto, nem do violão.”
KASSIN, MÚSICO E PRODUTOR

“Eu admiro muito o Chimbinha. Ele trouxe aquela guitarra que tinha no carimbó, na música da América Central, uma coisa amazônica. Ele influenciou vários guitarristas nordestinos. Se você for lá pro Norte você
vai ver um monte de Chimbinhas. A Joelma também tem um carisma enorme. Mas ela serve o prato e ele faz a comida.”
ROBERTINHO DE RECIFE, GUITARRISTA

“Ele é um guitarrista bem foda, um guitarrista clássico da ‘guitarrada’. Tem personalidade, mas não é um inovador. Como ele, tem vários caras no Pará que tocam desse jeito. É como se você falasse que o maracatu foi uma coisa inovadora na época do manguebit. ”
FERNANDO CATATAU, GUITARRISTA

“Um dos maiores guitarristas da história da música brasileira, tanto em habilidade quanto em criatividade. Ele trabalha com um gênero renegado pela cúpula da inteligência, mas leva pro povo algo que eles recebem muito pouco: uma boa música no sentido de ter o instrumento bem tocado. É um dos artistas mais completos do Brasil.”
CARLOS EDUARDO MIRANDA, PRODUTOR

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Pagando Pau 1

Os sites que falam sobre os ritmos populares de uma maneira séria e respeitosa começam a proliferar na internet brasileira, para a minha imensa felicidade. A maioria é tocada por fãs e amadores, entenda-se: não jornalistas. Como essa prática ainda é recente, encontramos muita riqueza de informações, mas pouca análise crítica. Defeito de todo fã. Até eu, às vezes me flagro praticando auto censura na hora de apontar defeitos em bandas que eu admiro muito, como o Forró do Muído, Grupo Tradição, Aviões do Forró, Banda Calypso ou Victor & Leo. No entanto existem também honrosas exceções. A primeira delas é o site Blognejo.

Dentre os exemplos de amizades recentes que ando fazendo e que relatei em meu post sobre as assessorias de imprensa, a do Marcus é uma das mais produtivas, para ambas as partes. Seu blog é atualizado com freqüência quase diária e trás muita informação e as vezes muita polêmica. Como na matéria em que ele denuncia o clima pesadíssimo em que está sendo feita a separação da dupla Edson & Hudson. Mas também rola diversão, como quando ele apresenta nomes bizarros de duplas sertanejas. Como se tudo isso não bastasse, temos também idéias geniais, como o Top Five, onde expões cinco situações com temas correlatos. sou fã do blog do cara e recomendo a todos que insiram ele na sua relação de leituras diárias.

Como exemplo da qualidade do trabalho do Marcus e aproveitando o gancho que foi a coluna dessa semana no site Bis MTV com João Bosco & Vinicius, que praticamente criaram o termo Sertanejo Universitário, vou colar aqui o Top Five que conta a história desse gênero. Aproveitem!

O Sertanejo Universitário em Cinco Tempos

1. BRUNO & MARRONE ESBOÇARAM

CD de voz e violão, pirateado, com um punhado de regravações e a posterior gravação de um DVD com várias músicas inéditas e regravações, mas num esquema acústico bem melhor elaborado e que vendeu horrores. Parece a história de uma dupla universitária, não é verdade? Só que estou me referindo a Bruno & Marrone, que, sem saber, desenhavam as primeiras etapas da história de sucesso desse novo segmento dentro da música sertaneja, isso cerca de 4 anos antes do surgimento para o Brasil de nomes como o da dupla abaixo.

2. JOÃO BOSCO & VINÍCIUS LANÇARAM

Vendo o sucesso que aquele esqueminha de Bruno & Marrone fez com a galera jovem, essa dupla resolveu seguir na mesma linha. CD pirateado, regravações, inéditas que pegaram, mas desta vez eles fizeram com a total consciência do público que pretendiam atingir. Galera jovem ,de preferência universitários, que passaram a lotar festas e a cantarolar as músicas para todo lado que iam, principalmente em sons de carros.

3. CÉSAR MENOTTI & FABIANO CONSAGRARAM

Os irmãos de BH fizeram a mesma coisa que João Bosco & Vinícius, só que se apressaram em gravar um DVD top de linha e lançá-lo para todo o Brasil através de uma das maiores gravadoras do país. O resultado: sucesso nacional, presença constante em programas de TV, músicas de sucesso. Enfim, o Brasil inteiro passou a conhecer e amar o estilo universitário.

4. VICTOR & LÉO RENEGARAM

Como é de praxe, o público universitário tende a mudar de dupla preferida a cada seis meses. Acontece que esses dois rapazes tinham um esquema parecido, com regravações, acústico, o que fez com que o público se identificasse e automaticamente rotulasse como sendo o mesmo estilo das duplas anteriores. Eles então fizeram um esforço para se desvencilhar do rótulo e mostrar que tinham um trabalho diferente. Soltaram até uma nota no site oficial repudiando o termo. De certa forma deu certo, já que seu público hoje é muito mais abrangente e seu trabalho é definitivamente diferente e original.

5. ZEZÉ DI CAMARGO & LUCIANO ATACARAM


Uma das duplas mais amadas de todos os tempos resolveu atacar os novatos que estavam surgindo valendo-se do rótulo universitário, negando a antiga lenda de que os sertanejos eram uma família. Usaram frases como: “o sertanejo universitário repetiu de ano”, “eu sou mestre”, “eles são uma mentira musical”. Pesado, vindo de quem um dia também começou cantando em meio a farpas.

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Outro site para o qual eu pago um pau filho da puta é o Território Sertanejo. Não fiz amizade ainda com o Fabinho Dornelles, o dono do cafofo, mas posso garantir que acompanho de perto tudo o que sai lá. Num post dessa semana, foram apresentadas algumas das piores capas de todos os tempos. Vou apresentar algumas para vocês. Lá no blog tem mais, inclusive com textos explicativos. Divirtam-se!



terça-feira, 30 de junho de 2009

Triste, mas real: Gerson vai sair do Tradição



Desde o inicio do ano que os fãs do Grupo Tradição vivem a agonia de saber que o vocalista Michel irá sair da banda. Michel Teló vai realizar seu sonho de infância que é ser cantor solo. As gravações das músicas de seu disco de estréia já estão bem adiantadas e a promessa dele é estejam disponíveis para download em seu site oficial ainda em julho. A música de trabalho "Ei Psiu! Beijo Me liga" já está lá.




Com a entrada do novo vocalista Guilherme Bertoldo as coisas pareciam que iriam se encminhar sem maiores traumas, afinal ele também toca sanfona e poderia dar sequencia aos memoráveis duelos com Gerson. Só que de repente começaram a circular na web rumores de que Gerson iria sair também. Daí o buraco é bem mais embaixo.



O Pekois, guitarrista do Tradição mantém um blog bem bacana que atualiza com frequencia. Numa primeira declaração desmentiu os boatos, dizendo que se Gerson fosse sair, os colegas de banda seriam os primeiros a saber. Já num segundo post, num tom bem, digamos assim, indignado, queixou-se que Gerson fica falando para alguns amigos que vai sair. Palavras do Pekois: "Ele esta fazendo isso por conta propria...e parece que ja esta ate ensaiando com o novo grupo...trio sei la...
...so nao sei porque que ele ta fazendo isso meio escondido...conta pra um...conta pra outro...porque nao chega na reuniao, e avisa a todos que vai sair entao ...se e isso que ele quer (pois com certeza nao e isso que a gente gostaria )"




Depois desta, o intrépido Timpin aqui resolveu entrar em ação e ontem entrei em contato com o próprio Gerson. Foi uma ligação um tanto nervosa de minha parte, pois já afirmei em vários cantos e para várias pessoas que pago o maior pau pro cara e que considero ele um dos melhores sanfomeiros desse país. De presto ele disse que vai sair sim e que eu podia divulgar.

Inclusive falou que era muita coincidência eu ter ligado justo naquele dia e naquela hora. Ele estava começando o ensaio com sua nova banda em que definiriam a musica de trabalho dentre quatro previamente selecionadas. A banda será um trio, Gerson, mas o vocalista e violonista Thiago Machado, que participava de uma dupla em Campo Grande. O terceiro elemento é Serjão, cuja biografia não tive tempo de perguntar. Afinal de contas, sou um estagiario não remunerado no site da MTV e aqui no trabalho descontam todas as ligações que faço. E ligação interurbana pra celular todo mundo sabe que é foda. No ensaio de ontem também seria definido o nome da banda. Sugeri Amigaços do Timpin e ele apenas riu, fiquei boiando sem saber se era um sim ou não.

Agora é esperar para o desenrolar dessa novela. Espero que o clima na banda não fique meio pesado, afinal decontas eles ainda tem uma série de shows para fazerem até agosto, quando finalmente Michel e Gerson abandonam nosso amado Tradição que tantos fãs conquistou e tanta influência exerceu nos novos artistas do sul do país.



Abração Gerson e boa sorte aí campeão!

Isso é Calypso - ou A Lua Não Me Traiu

Este texto lindo é do Hermano Viana



Eu estava em Manaus, lá por volta de 1997, quando ouvi Chimbinha pela primeira vez. As rádios locais só tocavam brega paraense. Logo a sonoridade característica da guitarra, em todas as músicas, chamou a minha atenção. Era um dedilhado barroco, cheio de floreios, mas muito claro e seguro. Anotei o nome de alguns dos artistas, para procurar os CDs. Naquele tempo, ainda havia muitas lojas de discos, que vendiam os produtos oficiais, com encarte e ficha técnica. Percebi, em todos eles, o crédito para o mesmo guitarrista: Chimbinha. Como estava fazendo a pesquisa para o projeto Música do Brasil, e minha próxima escala seria Belém, resolvi procurar o cara. Foi fácil: todo mundo nos estúdios paraenses sabia onde encontrá-lo.

Chimbinha me deu de presente seu CD solo, chamado Guitarras que Cantam, hoje uma raridade que deveria ser relançada para os fãs conhecerem suas origens. Era um disco de guitarrada, claramente herdeiro das invenções dos mestres Vieira e Aldo Sena, que foram muito populares em toda a Amazônia no início dos anos 80, antes da febre da lambada. Sou fã de guitarrada - então foi fácil ficar fã do Chimbinha. As músicas Dançando Calypso e Na Levada do Brega, que abrem o Guitarras que Cantam, estão entre as minhas favoritas de todos os tempos. Elas aparecem tocadas ao vivo num dos episódios do Música do Brasil que passou na MTV e na TVE.

Fiquei fascinado com a movimentação musical em Belém, ainda totalmente desconhecida no sul do país. Escrevi o seguinte texto para o livro de fotografias do Música do Brasil:

"O brega, se ninguém ainda percebeu, é rock. Digo mais: é o mais amado e duradouro estilo do rock brasileiro. Tudo começou com a jovem guarda, e sua adaptação do rock internacional para o gosto popular nacional. Quando Roberto Carlos colocou em segundo plano as guitarras elétricas e se transformou em cantor romântico acompanhado por orquestras, a fórmula inventada pela jovem guarda se descentralizou, primeiro passando pelo Goiás de Amado Batista, depois pelo Pernambuco de Reginaldo Rossi, até chegar ao Pará do ex-governador Carlos Santos, também cantor brega, autor de dezenas de discos.

Hoje Belém é a capital do novo brega. Centenas de CDs são lançados anualmente, a princípio para um consumo regional, mas que começa a atingir também o público nordestino. Os músicos locais já nem chamam o que fazem de brega, dizem que é "calipso", música mais "sofisticada".

O marco do nascimento do calipso - não tem nada a ver com a música de Trinidad e Tobago - foi o sucesso Ator Principal, lançado por Roberto Villar em 1996. De lá pra cá, os discos do novo brega de Belém são produzidos com maior cuidado, as guitarras são dobradas, e o ritmo se acelerou. Algumas pessoas se destacam no meio da profusão amazônica de novas estrelas.

Chimbinha, com 23 anos, tocou guitarra em mais de 200 CDs, só em 1997. É uma das maiores revelações entre novos músicos brasileiros de qualquer estilo, sendo herdeiro direto das invenções de Renato dos Blue Caps - que criou o chacumdum da guitarra brega ao ser obrigado a tocar num disco de bolero, sem saber tocar bolero - e das guitarradas de Vieira.

Mas a revelação mais pitoresca de toda esta cena paraense é Wanderley Andrade, auto-intitulado "o ídolo louro do brega". Quando pedi que resumisse sua história musical, ele me deu a seguinte aula sobre as fronteiras do pop brasileiro:

'Posso falar alguma coisa? Legal, porque a nossa música paraense de hoje é uma mesclagem do ritmo calipso com o twist, na onda de Jerry Lee Lewis. A gente deu muita sorte, porque hoje essa mesclagem, graças a Deus, roda em dezessete estados brasileiros. Essas ondas todas aqui não têm nada de ridículo. É um papo dez, é uma mistura de Nina Hagen, com aquela onda dos Sex Pistols, do Pink Floyd, do Dire Straits, e aí eu peguei o Pepeu Gomes daqui do Brasil e fizemos essa onda: o negócio é sério. Sempre gostei de Elvis a Morengueira.'"

Mais de um ano - talvez dois anos - depois de nosso encontro paraense, Chimbinha e Wanderley Andrade foram convidados para tocar na festa de lançamento do Música do Brasil, que aconteceu no então chamado Tom Brasil, em São Paulo. Isso num palco que também apresentou Siba e vários mestres de Nazaré da Mata, pré-Fuloresta do Samba. Era um tratamento de choque para a platéia paulistana, já um debate sonoro sobre o que é tradição musical no Brasil. Chimbinha, ao ser convidado, disse que queria se apresentar com sua nova banda, a Banda Calypso. Ouvi a fita demo e não achei nada demais. Já teríamos Wanderley com o brega cantado. Do Chimbinha, eu gostaria de ouvir uma guitarrada, mas ele insistiu tanto que desembarcou em São Paulo acompanhado por Joelma, que eu não conhecera em Belém.

Dei uma entrevista para a Trip, dizendo que Chimbinha era um dos melhores guitarristas brasileiros (tentando incentivar sua carreira de guitarreiro) e recebi seus agradecimentos pelo elogio através de alguém que tinha contato com ele no Pará. Outras notícias que chegavam de Belém eram de que Chimbinha tinha deixado de atuar como músico de estúdio e passado a se dedicar inteiramente para a Banda Calypso. Fiquei com pena: achava que bandas como a Calypso havia muitas, que o que faltava mesmo no brega era um instrumentista criativo como Chimbinha, capaz de dar uma sacudida boa nas fronteiras mais conformistas do gênero.

Então perdemos o contato. Só muito tempo depois comecei a ouvir falar do sucesso da Banda Calypso no Nordeste, sucesso cada vez impressionante e cada vez mais nacional. Quando a popularidade ficou indiscutível, no final de 2005 e sem nenhum apoio de gravadora, é que a Calypso começou a aparecer na TV em rede nacional, onde vi Chimbinha novamente já com seu topete louro. Fiquei alegre por descobrir que ele finalmente conseguiu o que queria.

Em 2006, eu já estava trabalhando no Central da Periferia. Queríamos fazer um programa em Belém, contando um pouco a história da música periférica local, do brega ao cibertecnobrega. A presença da Banda Calypso no programa era fundamental, mas estávamos com dificuldade de organizar a gravação por causa de sua agenda lotada de shows, e de viagens de show para show, de segunda a segunda. Resolvi ligar para o Chimbinha, para explicar o programa (que ainda não estreara). Era a primeira vez que conversávamos desde 1999. Achei que ele poderia nem se lembrar de mim. Mas a conversa foi fácil, como se nunca tivéssemos parado de nos ver.

O telefonema, de madrugada (a hora mais fácil para encontrá-lo), durou horas. Chimbinha me contou tudo que havia acontecido desde a festa de lançamento do Música do Brasil. Falou de como perdeu todo o dinheiro que acumulou como músico de estúdio para manter a Banda Calypso nos seus primeiros anos, quando não tocava em nenhuma rádio nem era contratada para nenhum show. Ele mesmo percorria todas as rádios de poste (que têm alto-falantes espalhados nos postes das ruas de Belém) pedindo para suas músicas serem programadas. Foi por causa de um desses alto-falantes de rua que um organizador de shows de Marabá, de passagem por Belém, ouviu a Calypso e convidou a banda para uma série de apresentações no sul do Pará. De lá é que seguiu para Pernambuco, onde passou meses fazendo show diários por uma ninharia. O sucesso aconteceu aos pouquinhos, entre vários momentos de desespero.

Falei do Central da Periferia, disse que o importante para a gente não era mais uma apresentação da Calypso, pois - naquele momento -isso já tinha sido visto em muitos programas de TV. Desejávamos contar a história da banda, de que periferia ela tinha vindo, como batalhou pelo sucesso. Seria ótimo se a Regina Casé pudesse ir com ele para Oeiras, sua cidade natal, para conhecer onde passou a infância. Chimbinha argumentou que a viagem de barco até Oeiras demoraria muitas horas, que não daria tempo. Eu respondi que a produção poderia tentar alugar um jatinho. Do outro lado da linha: "avião eu tenho, o problema é que lá não tem pista de pouso." A ficha caiu: logo descobri com quem eu estava falando - não era mais aquele garoto de 23 anos só com uma guitarra na mão.

Meses depois, recebi o convite - através de um email da minha amiga Meg, comunicadora paraense que hoje trabalha com a Calypso - para ir na casa de Chimbinha e Joelma em São Paulo. Seria um jantar para poucas pessoas, uma comemoração do lançamento do CD e DVD Banda Calypso pelo Brasil. Depois de ultrapassar a poderosa barreira de seguranças do condomínio Alphaville, cheguei numa mansão luxuosa, com colunas na porta. Dentro, só a família, os compositores e músicos que trabalham com a banda, o pessoal que cuida da agência pernambucana que vende os shows, e alguns amigos, como Zezé di Camargo. Joelma e Chimbinha trouxeram um chef de Santarém - o melhor da culinária paraense, segundo o casal - para preparar o jantar com peixes frescos que chegaram na sua bagagem.

Mesa posta, Chimbinha veio me apresentar cada prato. Ele falava sobre detalhes da vida de cada peixe ("este aqui gosta de nadar perto das pedras"), que não eram os peixes óbvios de todo restaurante amazônico. Perguntei curioso, achando que era um hobby biológico: "mas como você sabe isso tudo?" A resposta veio natural, não era nada para causar espanto: "ora, eu vendia peixe na feira com meu pai." Nova ficha caiu, dessa vez com peso de toneladas. Meus olhos lacrimejaram, pensei comigo contendo o choro: "outro dia ele vendia peixe na feira, agora está aqui numa mansão num condomínio em São Paulo, de um extremo a outro da injusta estrutura social do país, quase sem escalas, totalmente na marra... que símbolo incrível das mudanças pelas quais o Brasil está passando!"

Pensei no Lula, que dorme hoje no Palácio da Alvorada, para incômodo de muita gente (incômodo parecido com aquele que gera o sucesso da Calypso...) Mas há diferenças: a ascensão política de Lula é produto ainda das alianças entre vários grupos sociais diferentes, com o apoio decisivo de elites intelectuais da USP, por exemplo. Chimbinha se fez sozinho do lado de lá do cultural divide, sem gravadoras, sem televisão, sem elogios da crítica - eu mesmo, já fã, não tinha dado importância para a sua banda. Outros artistas das chamadas classes populares, para atingir o estrelato precisaram do apoio de mediadores de elite (mesmo Cartola "precisou" de Sérgio Porto...) - agora meu anfitrião estava inaugurando um outro caminho para o sucesso de massas, direto, sem o aval de ninguém do "centro". Essa é uma novidade e tanto para a cultura brasileira. Que bom que as tais "elites" estão perdendo o controle.

Chimbinha, também emocionado, me contou mais de sua história - a época que morou com sua mãe numa invasão em Belém, os maus tratos quando - aos 13 anos - tocava guitarra toda noite num cabaré e pedia para sua mãe para não voltar mais lá, mas sabia que não podia largar o "emprego" pois a família dependia daquele trocado para comer. Eu disse que ele deveria fazer um filme com essa sua história de vida. "Não - Chimbinha respondeu -, não precisa, ele - apontando para Zezé di Camargo - já contou essa história no filme dele, é a mesma coisa. Quero que o meu filme comece quando já está tudo bem, tudo alegre."

Os melhores amigos de Chimbinha em São Paulo são Zezé, Leonardo e Bruno (de Bruno e Marrone). Isto é: metade do PIB musical brasileiro hoje. Interessante que tenham se encontrado e que tenham amizade tão forte. São biografias semelhantes, e também ascensões sociais meteóricas. Leonardo trabalhou com plantação de tomate quando criança. Hoje são essas pessoas que alegram a vida da maioria dos brasileiros. Mas o sucesso não serve de blindagem contra o sofrimento e a dificuldade de ter que lidar com uma situação que sempre - repito: apesar do sucesso - insinua cruelmente que ocupam um lugar que não lhes é devido, que deveria ser ocupado por músicos com formação de "qualidade".

Chimbinha passou o jantar me agradecendo por estar ali, por ter aceito o convite, por ter apoiado sua carreira, por ter colocado sua banda na televisão. Eu dizia que a televisão é que tinha que agradecer, que eu não tinha feito nada, que se ele tivesse seguido meus conselhos nem haveria a Banda Calypso... Mas entendi o que estava em jogo, além do nosso respeito mútuo. Como diagnosticou certa vez, com muita precisão, a Regina Casé falando sobre os motivos para fazermos o Central da Periferia, num momento em que não estávamos nem um pouco confiantes nas virtudes/necessidade do programa - ela dizia algo mais ou menos assim: "o fato de essas músicas viverem esse sucesso popular todo e não aparecerem na mídia, cria uma sensação de irrealidade para tudo, é como se o sucesso fosse um sonho facilmente convertido em pesadelo, como se todo mundo naquele show tivesse tomado uma droga pesada; eles sabem que não precisam da mídia para fazer sucesso, mas o sucesso sem estar na TV - espelho importantíssimo para a cultura popular contemporânea do Brasil - parece oco, virtual; é incrível que a mídia, sendo aparentemente tão virtual, ainda tenha esse poder de conferir realidade às coisas..."

O pessoal que cuida da empresa que vende os shows da Calypso me confirmou: "às vezes chegamos numa cidade lá no interior do Tocantins - o show está lotado com o nosso público, mas o cara que aparece na TV e que não juntaria 100 pessoas tem o melhor cachê, o melhor camarim, é recebido pelo prefeito..." Questões simbólicas e não tanto... O que o novo sucesso popular brasileiro, criado à revelia da mídia, ainda busca na mídia é a legitimação, o selo de que é mesmo sucesso e se possível "cultura". Uma situação que conheço bem por acompanhar a história do funk: sempre tratado como caso de polícia (reuniões sempre na secretaria de segurança, nunca na de cultura), mesmo sendo o ritmo mais popular na cidade... É evidente, mais que evidente: o sucesso por si só não traz respeito.

No final do jantar sentamos ao redor de um piano de cauda branco (igual ao do Elton John, igual ao do Leandro Lehart), para ouvir as músicas do próximo disco, o décimo da banda, que só foi lançado em 2007 mas já estava em gravação. Eu perguntei: "mas como vocês já estão gravando se mal acabaram de lançar o CD/DVD ao vivo?" Chimbinha me explicou seu modelo de negócios, do qual é criador (muito criativo) e mestre: "mas este disco já está todo vendido para um supermercado, 500 mil cópias - não precisa mais ser trabalhado."

Os compositores estão presentes. Não compõem apenas para a Calypso, mas também para Calcinha Preta e várias outras bandas que fazem o Brasil popular de hoje cantar e dançar. São nomes como Beto Caju, Edilson Moreno, Elias Muniz, Edu Luppa, e o arranjador - desde o tempo do Guitarras que Cantam - Helinho Silva. É uma turma que fica internada num estúdio, morando num hotel em São Paulo, enquanto o disco está sendo produzido. É já um outro tipo de relação com os compositores, contratados pelas bandas para escrever seus próximos sucessos. Todos são trabalhadores do pop: parece que têm o método para o sucesso de massa, para a canção que vai agradar a maioria. Imagino que a Motown também funcionasse assim. Eu ia escutando as novas músicas e já podia ouvir as multidões cantando aos berros nos futuros shows lotados.

Já repeti várias vezes aqui que não tinha muito interesse pela música da Banda Calypso, gostava do Chimbinha guitarreiro... Então valorizava mesmo o aspecto antropológico do sucesso, um sucesso bem diferente daquele que a indústria fonográfica tradicional produzia no Brasil. Mas este CD, o Volume 10, eu gosto, pra valer. Musicalmente. É um hit perfeito atrás do outro. Há poucas canções melhores de se ouvir no rádio do que Mais Uma Chance, cantada por Joelma e Leonardo. Quando ouço na rua, meu dia se alegra e saio cantando junto. A situação de amor descrita na letra também é cativante, no seu narcisismo calculadamente desamparado e espertamente ingênuo: "meu amor se eu fosse você, eu voltava para mim, eu viria me socorrer". Um dia, quando um cantor chique fizer uma versão, todo mundo vai achar bacana... Mas é preciso tempo: o popular muito popular só se torna elogiável quando sua popularidade é coisa do passado, não é mesmo?

A fórmula pop da Calypso amadureceu. É um estilo, objeto claramente identificável. A voz de Joelma tem calor e graça - entendo bem porque todas as crianças são apaixonadas por ela. E a guitarra do Chimbinha continua a tal. Ele me disse que ainda pretende gravar outro disco de guitarrada. Nem precisa: não há necessidade do Chimbinha me provar mais nada. Mas que seria bom ouvi-lo novamente em gravação solo, por puro divertimento, ou por egocentrismo meu, isso seria: fecharia um ciclo completo em minha vida. Mas de qualquer maneira: Salve Chimbinha! Salve Joelma! Os músicos mais populares no Brasil hoje! Quando vão ganhar a medalha do mérito cultural?

sexta-feira, 26 de junho de 2009

A Delicada Arte de Lidar com uma Espécie em Extinção

Escrever a coluna Tudo Junto & Misturado no site Bis MTV é um trabalho que me traz uma imensa satisfação e que mesmo sem remuneração, faço com muita dedicação e paudurescência. Ouço novos sons, faço novas amizades e divirto-me muito. Só que, como de resto tudo nessa vida, tem também aqueles momentos em que dá vontade de enfiar o dedo no cú e puxar até rasgar.

Esses momentos costumam ocorrer quando tenho que lidar com uma espécie que desde o período cretácio desistiu espontaneamente de evoluir, os assessores de imprensa. Acontece que em minha área de atuação as informações disponíveis são pouquíssimas, logo, preciso telefonar para as assessorias e obter aqueles dados que agregam valor à matéria. É aí que começa a via crucis.

De presto eles afirmam que gostam muito da idéia, ainda mais quando ouvem as três letrinhas mágicas: ême, tê e vê. A segunda coisa são promessas de envio rápido de informações e fornecem e-mail e MSN. Então por razões que a razão desconhece quase nunca estão on line e quando estão quase nunca respondem as mensagens e quando respondem em geral fornecem prazos que nunca são cumpridos e quando cumprem, repassam aquelas mesmas parcas informações que eu já tinha encontrado na Internet. Basicamente releases (muitas vezes mal escritos e cheio de erros de ortografia e concordância) ou entrevistas de baixa criatividade.

Então acontece o momento em que eles travam, digo que já tenho aqueles dados e envio outras perguntas. Daí pra frente é mais fácil marcar uma entrevista exclusiva com Mahmud Ahmadinejad do que falar com eles. O resultado é que os prazos vencem, escrevo as colunas com o que tenho nas mãos e seria muito bom, seria muito legal se a coisa morresse aí. Mas não. Essa coisa é pior do que gato, tem sete vidas ou mais.

Por outra razão que a própria razão, tal qual um Luis Inácio Lula da Silva, é a última a saber, eles reaparecem no MSN. Isso quando não ligam! No caso da excelentíssima senhora S. Mello Pinto, de uma banda aí que não vou citar o nome por que ainda alimento esperanças de traçar a vocalista, me telefonou aos berros dizendo que não era nada bom cutucar leão com vara curta porque não tinha tirado o parágrafo que ela tinha MANDADO tirar. O meu patrão, o intrépido André Forastieri, nunca me mandou fazer nada. Mas o pior mesmo sabe o que é? Eu pensava que o dito popular era cutucar onças com varas curtas. Até onde eu saiba, além de terremotos e revoluções, aqui também não existem leões. Lá na Africa, de novo até onde eu saiba, ninguém cutuca leão com porra de vara nenhuma.

O pessoal que assessora a dupla Victor & Leo, pelo menos, fogem de mim como o diabo da cruz. O cidadão chamado Luis Antonio, para vocês terem uma idéia, a esta altura já deve ser um notório corno, pois está a semanas viajando e por conseqüência, sem dar um trato na patroa. Tudo para não dar satisfações sobre as merdas que andou fazendo com o pessoal dos fãs clubes nas turnês.

Mais recentemente outro martírio, seguindo todos os passos do roteiro apresentado acima, a coisa aconteceu de novo com a coluna sobre Axé Music e a banda Via Circular. Tudo pronto, coluna on line e milagrosamente no outro dia, na primeira hora da manhã a janela do MSN da assessora de imprensa é a primeira a se abrir como um coração em flor no desktop do meu computador. Disse que o pessoal não gostou do texto, que não entendeu onde eu quis chegar, que comecei falando de um evento, depois fiz uma tour rápida pelo história do Axé para só no final, falar da Via Circular.

Se parasse aí, eu nem estaria escrevendo este texto, mas os caras conseguem se superar, ela queria que eu mandasse o texto antes de postar para ser aprovado e aí sim, mantermos uma parceria. Se fosse uma parceria envolvendo sexo eu até achararia justo e aceitável, mas uma parceria para gerar colunas chapas brancas, tô fora. A matéria foi feita inteiramente com as informações passadas a mim pela Julli, do fã clube oficial.

Assessoria de Imprensa é algo que só tinha função na era pré-digital, onde era possível ter controle quase absoluto sobre as informações que eram divulgadas. Agora felizmente as coisas estão mudando numa velocidade tão grande, que esses últimos representantes da espécie não se dão conta das cagadas que estão fazendo. O controle sobre as informações está saindo das mãos dos poucos eleitos por indicação e indo para as mãos dos mais rápidos, espertos e inteligentes, eleitos por meritocracia.

No constante aprendizado da vida, (e do jornalismo, pois sou um auto ditada que está aprendendo a profissão tomando cacetada) o Timpinho aqui de hoje em diante só vai se relacionar com fãs clubes, que ao contrário daqueles locais cheios de tiazinhas mal comidas que são as assessorias de imprensa, está cheio de gatas lindas e maravilhosas. Afe Maria! Grandiospai!

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Stefhany & Eu - Pra se apaixonar

Rumores na Internet dizem que Stefhany vai aparecer no programa Fantástico da Globo no próximo domingo, 31 de maio. Não sei, mas penso que é possível. Os rumores dizem que foi feita uma gravação onde Luciano Huck e Preta Gil dão uma passeio de Cross Fox pelo Rio de Janeiro. O fato de Preta Gil estar na fita é a pista que me leva a crer que talvez os rumores sejam verdadeiros. Se bem que os rumores são descendentes da raça dos humores e como tais, mudam com uma certa freqüência. A prudência adverte então que não é uma boa desmarcar aquele cineminha com a namorada pra fazer plantão na frente da TV pra flagrar a self made girl do Piauí.

Na coluna em que apresentei a Stefhany para os leitores do Bis MTV afirmei com todas as letras que Preta Gil era uma aproveitadora desonesta e se essa gravação for veiculada no Fantástico ser a maior prova de que eu estava certo. A curtíssimo prazo foi uma vitória pra ela, conseguiu aparecer na grande mídia.

Embarcar no sucesso alheio pra conseguir visibilidade na mídia não é uma estratégia propriamente nova no caso da atriz gorda. Assim que soube que Ivete Sangalo convidaria os Aviões do Forró para participar de seu novo DVD, ela começou a cantar Chupa que é de Uva em seus shows. Como os Aviões são uma banda com uma trajetória bem sólida, esse constrangimento não alterou um milímetro sequer a trajetória da aeronave de Xandy e Solanja.

Mas não vou ficar perdendo aqui meu precioso tempinho com esse depósito ambulante de gorduras trans, é a Stefhany que importa. Quando escrevi a coluna sobre ela me enchi de esperanças de que ela fosse gostar do texto e quem sabe até, delírio dos delírios, conseguir um contato com ela. Mas nada, nem na comunidade do Orkut comentaram muita coisa. Só que dizem que os anjos velam pelos cegos, pelas crianças e pelos bêbados. Não sou nenhum dos três, mas bebo de vez em quando, meus amigos me chamam de crianção quando faço algumas coisas meio, digamos assim, retardadas e já me chamaram de cego quando namorei a Jucilene.

Algum anjo meio desocupado lá de cima me apresentou um tal de Flavin na Comunidade Stefhany Pra Se Apaixonar e ele tem um dos dançarinos da diva no seu MSN. Bom, ter um dançarinos dela na lista de contatos não é uma coisa assim muito saudável pra reputação ninguém. Eu só reparei que eram dançarinos e não dançarinas quando um colega de trabalho me alertou para o fato. Como não dá pra fazer um omelete sem quebrar os ovos (sem trocadilhos nem insinuações espúrias aqui, viu seu viado?) estou disposto a encarar o constrangimento.

Só que minha consciência volta e meia me liga a cobrar. No último interurbano que ela me fez, ela me disse que sou muito burro. Que não reparei no fato de que a Stefhany ficou amiguíssima daquela atriz gorda que não vou mais falar o nome e que simplesmente deve ter o-di-a-do o meu texto. Na Claudia Leite eu também desci o sarrafo e ela deve adorar a loura aguada Ivete Sangalo cover que se acha pra caralho e que teve que dar um show de graça no Rio pra que pudesse ter público o suficiente pra poder gravar seu DVD sem que sua mãe se suicidasse de decepção ao assistí-lo.

Logo, a conjunção de Saturno com a quinta lua de Júpiter, mais meia dúzia de meteoritos imundos azendando meu zodíaco, indicam que não vou me dar muito bem nessa história.

O que é uma pena. O que é um sinal de que pra o Universo ficar perfeitinho de verdade, Deus ainda deve fazer uns up grades de hardware e uns downloads de softwares. Por que em minha coluna fiz questão de enaltecer os talentos de Stefhany. Na época, seus clipes... rudimentares eram a grande sensação do momento no Youtube e ela era motivo de chacota de cabo a rabo nesse país que um dia já foi famoso pela produção de mulatas. Meu medo era que ela fosse estereotipada e tivesse sua reputação arruinada pra sempre.

O fato de que ela talvez apareça no Fantástico reduz um pouco meus temores. O que falta para a nossa heroína é um produtor talentoso, que incentive ela a trabalhar em novas composições e que grave suas novas músicas com arranjos bacanas, de modo que o brega, essa manifestação cultural genuinamente brasileira, deixe de ser um gênero visto com desprezo. Não que as músicas de seus dois primeiros discos sejam ruins, muito pelo contrário, ao invés de fazer verões de sucessos internacionais, tem várias composições originais de ótima qualidade.

Se isso vai ocorrer ou não, meu oráculo está sem créditos e não vou conseguir descobrir. Só me resta sofrer e torcer para que Stefhany me perdoe por ter difamado suas novas coleguinhas. Mas uma pista pode ser obtida de uma versão de uma música do Jota Quest que ela canta num CD ao vivo que consegui dela. Na performance ela canta: "Mas se quiser saber pra onde eu vou. Pra onde leva eu, é pra lá que eu vou." Entendeu ou quer que eu desenhe?

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Making Off da Coluna do Muído

Depois de dois meses de colagens de notícias, já está mais do que na hora de começar a blogar de verdade. Para estréia vou contar o making off da coluna do Forró do Muído, que é quase tão interessante quanto a coluna em si. Foi um mês de bateção de cabeça até chegar ao resultado final.

A idéia inicial era escrever um perfil bem bacana dos Aviões do Forró, que eu considero a melhor banda do estilo em atividade no momento. Pra inicio de conversa não sou jornalista formado, não tenho as manhas, não tenho as técnicas, logo, acessei o site da banda, fui na seção de contato e mandei um e-mail propondo uma pauta. Como sou um reles desconhecido, naturalmente que não me responderam.

Resolvi mudar de estratégia e atacar na comunidade oficial da banda, que tem milhares de membros. Dando uma lida nos tópicos identifiquei um cara que aparentemente sabia tudo sobre a banda. Mandei um scrap pro cidadão e ele inicialmente demonstrou interesse em ajudar. Somente inicialmente, pois novamente não recebi mais nenhum retorno. Só que fuçando nas comunidades do cara notei um padrão, todos estavam falando bem de um tal Forró do Muído.

Forró do Muído? Eita nomezinho estranho da gota, nunca jamais tinha ouvido falar. Imediatamente fui nas comunidades de download e tratei de baixar algo deles pra escutar. Foi só descompactar o arquivo e jogar no mp3 pra que a cagada fosse feita. De cara notei que além de tocarem forró de uma maneira muito original, o som tinha uma levada muito, mas muito maneira.

Fui escutando no mp3 no ônibus no caminho de casa, mal conseguindo esperar pra ouvir aquilo num som potente, se possível tomando uma gelada. Foi o que fiz e quando botei pra tocar o Muído Elétrico, versão acelerada das músicas pro carnaval, já estava subindo as paredes.

- Puta que o pariu cara, esse som é do caraaaaaaaaalho! - Estava definida a coluna da próxima semana.

No outro dia, de volta ao trampo, comecei minhas pesquisas na web. Se eu já estava apaixonado pelo som deles, imaginem a minha surpresa ao digitar o nome das vocalistas no google e ter essa foto como resposta. Amor a primeira vista.



O problema é que em termos de informações biográficas da banda, encontrei pouquíssima coisa. Um release breve da banda e apenas uma entrevista, nada mais. Muito pouco pra escrever a coluna que a banda merceia. Apenas a informação de que a banda era sucesso absoluto no norte e nordeste, com uma média superior a trinta shows por mês. No entanto, notei que tinha um blog muito bem organizado tocado pelos fãs. Calejado pelo fato de ter sido ignorado nas tentativas de contato via e-mail (o que já tinha ocorrido com o Fantasmão e com a Stefhany), resolvi mudar de tática e contatar os fãs.

Deu certo, no outro dia estava lá o e-mail de Flaviane Torres, uma das minas que tocavam o Blog do Muído, dizendo que achava a interessante a proposta. Melhor, ela tinha contado direto com Simaria, uma das vocalistas da banda. Animado com a perspecitiva de que Simaria responderia minhas perguntas, adiei a coluna do Muído por uma semana e acabei escrevendo o texto Pirataria Legal, sobre os caras que gravam os shows ao vivo. Escrevi dez perguntas e mandei pra Flaviane repassar pra Simaria.

Só que durante a semana a banda estava em turnê por cidades do interior, o que dificultava imensamente o contato, somente no fim de semana que Flaviane conseguiu repassar as perguntas para Simaria. Chaga a segunda-feira e nada de Simaria responder, terça-feira e nada novamente. Ocorre que eu tinha o hábito de enviar minhas colunas na segunda, no máximo terça-feira. Então, pelo MSN, desabafei pra Flaviane que tava foda, todos os meus esforços tentando contato, tentando divulgar a banda para um público diferente e eles nem tchuns.

Pedi pra ela que me contasse tudo o que sabia sobre a história da banda. Ela começou a escrever e não parou mais. Ficou meia hora digitando no improviso e forçando sua tendinite. No final, a coluna estava pronta. Foi só salvar a conversa, abrir meu editor de texto e escrever a matéria. Como Flaviane estava meio insegura quanto às informações, pediu o texto pra mostrar pra Simaria. Mais uma vez não obteve retorno. Já impaciente com a demora toda e crente de que não tinha escrito nada que comprometesse a banda, mandei a coluna pro pessoal do MTV Bis e fui embora.

Eis que então, lá pelas 20:00, a própria Simaria liga no meu celular. Meu coração quase parou, aquela gostosona e talentosa estava falando com euzinho, um fã recém conquistado. Só que a alegria se dissipou assim que ela acabou de se apresentar. Tinha muita coisa errada no texto, não era daquela forma que as coisas tinham acontecido. Quando desliguei o celular pensei:

- Caralho! Agora que dei uma dentro, acabo dando uma fora?

Estava sem computador e a lan house do bairro tinha sido fechada no fim de semana anterior. O que fazer? E se a matéria já estivesse on line, o que faríamos pra corrigir a besteirada? Liguei pra um amigo, passei meus dados e senha de e-mail e pedi pra ele enviar uma mensagem de pelamordedeus, não postem o texto! pro pessoal do Bis. Com o cú não, na manhã seguinte acesso o site e Ufa! Não tinha sido publicado. Simaria, na ligação, prometeu ligar de novo para corrigirmos tudo. O dia de quinta-feira passou e nada da ligação.

Na sexta-feira, as dez horas da manhã resolvi chutar o balde e gastar algum dinheiro com interurbanos. Liguei na A3 Entretenimentos, empresa que gerencia a banda e abri meu coração pro primeiro infeliz que me deu atenção. Disse que estava com a matéria pra lá de atrasada e que meu emprego estava em risco. O cara se comoveu e me passou o telefone da assessora de imprensa da banda. Liguei na casa da mulher, maior choradeira de criança e tal e expus meu problema.

Ela me deu o endereço de seu e-mail, pediu pra me passar o texto para corrigir e até o final do dia a coluna estaria fechada. Acontece que a banda estava em Fortaleza e faria um show pela noite, logo, a assessora estava assoberbada até o talo com as funções de ceder credenciais de imprensa e outros detalhes. Meu desconfiômetro piscou, meus nervos estava à flor da pele. Fui na farmácia mais próxima do trampo, comprei uma Maracujina, tomei meio vidro no gargalo mesmo, sentei na frente do PC, respirei fundo e pensei, tenho que escrever uma coluna tapa buraco pra semana não passar em branco.

Foi assim que surgiu a coluna "A salvação da produção musical vem da selva".

Desde que comecei a colunar no Bis que decretei o sábado como o dia de fazer minhas audições. Como minha área é vastíssima e não tem como eu conhecer todos os discos de todo mundo sobre os quais escrevo, costumo baixar tudo o que posso durante a semana e, no sábado, compro uma caixa de latinhas de cerveja, ponho o som no máximo e faço o que chamo de Imersão Total no Trabalho do Artista. Começo cedo, lá por uma da tarde e quando chega a noite já estou completamente bêbado e manjando tudo do som da banda ou do cantor.

E foi assim, no final da sessão etílica que estou eu lá, ouvindo Forró do Muído ao vivo em Massaranduba, quando toca o celular e ela própria, a mesma que estava cantando "São Amores" no volume máximo. Manguaçado que estava, foi mal ela começar a falar que já cortei.

- Você é uma traíra do caralho!
- O que?
- Ficou de me ligar e não ligou! Ficou de mandar e-mail e não mandou!
- Mas eu respondi as perguntas...
- Que porra de responder perguntas, sua fuleira! Eu não quero mais caralho nenhum de respostas, a porra do texto tá pronto, é só corrigir o que estava errado.
- Mas tu não recebeu minhas respostas?
- Recebi caralho nenhum!

E assim por diante.

Na segunda-feira, ressaca pantagruélica, eu era só arrependimento. Liguei pra assessora de imprensa e me desmanchei em desculpas. Ela riu um pouco e ficou de me ligar na terça pra acertarmos o texto por telefone mesmo. Liguei também pra Simaria (esse mês eu tô fudido com os descontos de ligações) e ela riu bastante com a comédia da situação e ficou de mandar o e-mail pro endereço correto, tinha mandado pro meu Hotmail bichado. Desta vez as duas cumpriram a promessa.

Ocorre que nem tudo seria tão fácil e indolor assim. Além de me passar as informações corretas, numa longa ligação de mais de quarenta minutos (bom!), começou a dar pitacos em frases que eu tinha escrito que, embora corretas, ela achava que não pegava bem pra imagem de Simaria (mau!). Já falei, não sou jornalista formado, não tenho experiência, foi meu primeiro contato com assessorias de imprensas.

Com esta frase, em específico, ela empiçou:

"As duas cantam desde criança, quando moravam no interior da Bahia. Cheias de talento, mas destituídas de uma banda, toda vez que tinha algum artista tocando em sua cidade elas iam lá e imploravam para cantar junto. Tanta persistência acabou levando as duas a toparem com Frank Aguiar, virando backing vocal e dançarinas da banda do hoje deputado federal."

Encasquetou com o "implorar". Nesta outra frase, implicou com o "chorar as pitangas":

"Insatisfeitas com o trabalho secundário que estavam fazendo, abandonaram o barco para se lançarem como dupla. Infelizmente, devido a falta de um empresário eficaz, os dois discos que lançaram não aconteceram. Foi quando resolveram chorar as pitangas para Fernando Gusmão, vocalista do Rasta Chinela."

Como vocês bem podem observar, essas frases não saíram no texto final, isso porque eu reescrevi quase tudo, mantendo apenas o parágrafo inicial e a piada com o espanhol no final, que tanto a assessora quanto a Simaria pediram pra tirar, mas que o casca grossa aqui, que pode até ser um folgado aprendendo jornalismo na base da quebração de cabeça, mas não é otário, manteve. Pô, Simaria querida, se por um acaso estiver lendo isso, entenda, trata-se de um final de texto que preserva aquela jovialidade característica do som da banda, além de dar aquele toque de humor imprescindível. Ficou legal, admita.

No final tudo deu certo, a coluna saiu, o pessoal do Blog do Muído divulgou e eu ainda por cima estou com a Simaria no meu MSN e na minha agenda do celular. Se eu fosse o espanhol namorado da Simaria, tratava de se mudar nem que fosse pra Quixeramobin e ficar mais perto de sua namorada. Não é por nada, mas sabe como é que é, nénão?

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Quer ler a reprodução da tal coluna? O Site Bis MTV não existe mais, então reproduzimos aqui no blog, clique já!

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Forró do Muído: pé de serra para o século XXI

A Banda Calypso tem uma legião quase religiosa de fãs. No entanto, no show do dia 20 de março no Centro de Tradições Nordestinas em São Paulo quem roubou a cena foi uma banda nova do Ceará. Atuando no circuito de shows do norte há dois anos, o Forró do Muído parece repetir a mesma história de sucesso e fanatismo da banda de Chimbinha.

O Forró do Muído surgiu em 2007 quando Isaias, um dos empresários da A3 Entretenimentos, dona dos Aviões do Forró, resolveu montar uma banda de forró pé de serra. Só que o pessoal da A3 não costuma seguir fórmulas batidas, logo, trataram de modernizar sua banda somando à tradicional formação sanfona/zabumba/triângulo um baixo elétrico, bateria adicional e a grande sacada, o saxofone de Fabiano. No front, o vocal Binha Cardoso, forrozeiro das antigas com passagem em bandas como Canários do Reino e Brasas do Forró.

Mas ainda faltava uma vocalista que deixasse Isaías satisfeito. Várias já haviam sido testadas, mas nenhuma se encaixava com o perfil da banda. Foi quando recebeu uma ligação de Fernando Gusmão, empresário da banda Rasta Chinela, e soube que Simaria, antiga vocalista da banda do deputado federal Frank Aguiar, estava insatisfeita com os resultados da dupla que mantinha com sua irmã Simone. Já conhecendo o trabalho das duas, Isaias chamou imediatamente as meninas para uma conversa em Fortaleza. Elas eram tudo o que eles queriam para complementar o recém formado Forró do Muído.



No princípio a banda foi tocando em pequenos eventos particulares para que fosse testado o efeito daquele estilo diferente na platéia. O repertório jovem, o som envolvente e o carisma das vocalistas foi cativando o público até o ponto em que o pessoal da A3 decidiu gravar o primeiro CD promocional da banda. Com o lançamento do disco, de imediato a música "Deletando o Amor" foi subindo nas paradas das rádios até atingir o primeiro lugar.

O sucesso da música motivou o lançamento do segundo disco, e desta vez foram quatro hits. Daí para se tornarem o maior fenômeno no norte e nordeste da atualidade foi uma questão de meses. Com uma agenda lotada e fazendo uma média de trinta e seis shows por mês, o Forró do Muído está pronto, lapidado para estourar em todo o país. Enquanto bandas como os Aviões do Forró sentem dificuldade em serem digeridas fora do nicho forrozeiro, o som diferenciado do Muído tem potencial para vencer essa limitação.

Falar das apresentações do Muído para quem não os assistiu ao vivo é uma tarefa ingrata. Simone e Simaria são mestres na arte do improviso a ponto de seguramente podermos chamar o que elas fazem de forró free style. Simara, por exemplo, no meio de um show inventou do nada a sua versão pra Dança do Créu, que imediatamente caiu nas graças do povo. Outra característica fundamental das duas são os bordões, como "vocês são óóóóóóótimos" ou "vai coleguinha, vai vai coleguinha", que acabam virando gíria corrente entre os fãs.



Os detalhes que fazem a diferença são tantos que eu poderia ficar horas descrevendo. Um dos mais interessantes são as chamadas Raves do Muído, que é quando eles são escalados para serem a última banda a tocar nos eventos e o arrasta pé se estende até o raiar do dia.

Só que se você ficou curioso e afim de comprar um CD deles, nem pense em ir a uma loja. Todos os quatro discos promocionais deles são distribuídos de graça nos shows (invenção do Isaías, que eu poderia gastaria uma coluna inteira pra falar sobre ele) ou então adquiridos no, digamos assim, mercado informal. A banda está trabalhando seu primeiro disco de estúdio com previsão de lançamento em junho nas festividades de São João.

Essa história não termina aqui, essa história está apenas começando. E para os marmanjos folgados tais quais este escriba, deixo um brochante recado: Simaria está namorando um espanhol que ela conheceu pelo Orkut.

Pela sanfona de Luis Gonzaga! Poderia ter sido eu!

PS do Timpin.: Deixo aqui um imenso muito obrigado pro pessoal do blog do Muído.


originalmente publicado no site Bis

sexta-feira, 15 de maio de 2009

A salvação da produção musical vem da selva

Parece que a Amazônia não detém só o potencial de salvar o ecosistema planetário, mas tambem o de salvar a produção musical da falência decretada pelo mp3. Saiu na web recentemente um livro em pdf organizado por Ronaldo Lemos e Oana Castro, dentre outros, chamado "Tecnobrega: O Pará Reinventando o Negócio da Música", que traz a tábua de salvação para os artistas que estão vendo suas carreiras irem para o ralo com a falência da industria fonográfica.

Que esta indústria está falida, ninguém com suas faculdades mentais intactas é capaz de questionar. Os números comprovam, sob qualquer ponto de vista que se analise a questão. Victor & Leo, o maior fenômeno pop da atualidade, não consegue nem de longe chegar na marca de um milhão de discos vendidos. O próprio rei Roberto Carlos, que sempre foi aposta ganha de antemão, não consegue mais atingir a marca.

O que a cena brega de Belém inventou não foi feito com intensões políticas nem ideológicas, mas sim como alternativa de sobrevivência cultural e financeira por parte dos envolvidos. De uma maneira simplificada, podemos dizer que negócio do tecnobrega funciona de acordo com o seguinte ciclo de realimentação, composto por sete etapas:

1) Os artistas gravam seus discos em estúdio - próprio ou de terceiros.
2) As melhores produções são levadas a reprodutores de larga escala ou camelôs.
3) Camelôs vendem os discos a preços compatíveis com a realidade local e os divulgam.
4) DJs tocam esses discos nas festas.
5) Os artistas são contratados para shows.
6) Nos shows, CDs e DVDs são gravados e vendidos.
7) Músicas e bandas fazem sucesso e realimentam o processo.

Esse modelo é extremamente funcional, tanto para os artistas quanto para o público, gerando fonte de renda para muita gente. Um estudo da FGV prova isso com números: cada ambulante vende em média 300 CDs e 200 DVDs por mês. A maior parte das vendas vem dos grandes reprodutores (cerca de 80%). No entanto, 17% das vendas vêm da reprodução própria - o que, baseado no volume total de discos vendidos em Belém e na região metropolitana, é um montante considerável na análise da geração de renda.

No caso específico da cena tecnobrega, pesa também a questão das festas de aparelhagem. Elas reúnem milhares de baladeiros que veneram as aparelhagens como se fossem astros. As gigantestescas paredes de caixas de som produzem um tsunami sonoro que literalmente faz o chão tremer. A cabine dos DJs, chamadas de Altar Sonoro, têm nomes sugestivos como Nave do Som ou Duplo Cyber Comando e são equipadas com a mais alta tecnologia de produção de efeitos sonoros e visuais. Todos a observam como se fossse uma banda tocando no palco.

As aparelhagens mais famosas hoje são a Tupinambá, Rubi, Ciclone e Super Pop. Como as festas costumam durar um fim de semana inteiro, como raves, acabam gerando procura por artistas tecnobregas e favorecem o surgimentos de novos grupos, fazendo com que a cena tenha um crescimento contínuo e, dessa forma, contribuindo de forma decisiva para o novo modelo de produção musical nascido na Amazônia.



Em termos de êxito comercial, a Banda Calypso é o expoente máximo dessa metodologia de trabalho no que podemos chamar de Método Chimbinha de Gerenciamento de Carreiras. A dupla Joelma e Chimbinha inventou uma nova maneira de se virar sem depender de gravadoras comerciais. Eles criaram seu próprio selo e começaram a vender seus discos a preços mais acessíveis - entre R$ 5 e R$10 - em supermercados populares, feiras, festas e locais frequentados por fãs potenciais. A estratégia deu certo e o resultado todos já constataram.

Quando falei que a Banda Calypso era a banda brasileira da década a primeira coluna aqui no BiS, muita gente me chamou de louco suicida, esquecendo-se de que além de serem os grandes divulgadores desse modelo que pode salvar a produção de música no país, Joelma e Chimbinha são os maiores vendedores de discos do Brasil. Outra opinião minha que costuma arrancar gargalhadas de quem é adepto do senso comum é que Victor & Leo deveriam dar um pé na bunda da Sony Music. Além de não precisarem da multinacional, serviriam de exemplo para disseminar essa revolução na produção musical também no sul do país.

Como conclui Hermano Viana no texto da orelha do livro: "Quem quiser pensar o futuro da música não pode ignorar as lições tecnobregas da Amazônia digital."


originalmente publicado no site Bis

quarta-feira, 13 de maio de 2009

O funk, minha gente, é o futuro do movimento social

Por Ari Almeida & Marcelo Träsel

o bonde do tigrão vai anarquizar o bananão

Eu acho funk carioca o máximo.

Um bando de analfabetos funcionais miseráveis e sem o menor refinamento se junta, aprende a operar aparelhos até certo ponto sofisticados, apropria-se de peças da indústria cultural e avacalha com tudo, transformando-as em um batidão irresistível pontuado por letras que falam de suas próprias vidas. Cultura popular é isso aí.

Mais do que isso, estes jovens criam um mercado próprio para sua música, inventam festas que reforçam os laços comunitários — muito embora isso em geral envolva tomar posição contra outras comunidades — e criam um sistema de distribuição de renda e ascensão social próprio das favelas.

De acordo com reportagem da revista Carta Capital de 20 de abril, por Pedro Alexandre Sanches, não são raros os funkeiros que faturam mais de R$ 10 mil por mês. Além disso, sua música tem um sistema de distribuição independente de fato, passando longe das grandes gravadoras e até mesmo dos impostos cobrados pelo governo.

Os intelectuais de plantão, quando poderiam enxergar no funk a manifestação de uma imensa criatividade que, bem canalizada, poderia gerar música popular de excelente qualidade, preferem desqualificar o estilo com base em padrões eruditos. É óbvio que o funk é ruim. Difícil é esperar de excluídos semi-analfabetos que façam música que siga alto padrão, com a qual nunca tiveram contato.

Critica-se também a "mensagem" do funk. Mas ora, não se passou décadas exigindo uma cultura verdadeiramente popular no Brasil? Pois aí está ela. As letras falam da vida daquelas pessoas: assassinato e tráfico no horário comercial, sexo e drogas à noite para relaxar. Talvez algumas personalidades mais delicadas sintam nojo ao ver a falta de perspectivas daquela juventude exposta assim, nuazinha.

Assim como se chocam ao escutar meninas pedindo para serem "atoladas no cuzinho" ou coisa que o valha. Acham que isso mostra a exploração sofrida pela mulher nas rudes vielas onde mora a escória. Estranho não passar pela cabeça da gente de bem que elas possam realmente gostar disso e, na verdade, estejam levando o feminismo a um ponto mais alto, mostrando que podem encarar o sexo de maneira tanto quanto ou ainda mais fisiológica do que os homens.

O principal, no entanto, é que eles parecem estar se divertindo. E muito. No fundo, toda a grita contra o funk pode ser preconceito contra o fato de pobres estarem se divertindo. Da direita — porque, audácia! A ralé não tem o direito de se divertir! — ou da esquerda — porque eles deviam estar sofrendo com suas condições de vida subumanas e preparando a revolução, ou ao menos rendendo material para o Sebastião Salgado.

Acho o funk carioca o máximo não tanto como estilo musical — embora admita curtir um pancadão bem pegado em certos momentos —; acho o máximo mais como instituição. O funk, minha gente, é o futuro do movimento social.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Pirataria legal

Gustavo CDs. Henrique CDs. Rodolfo CDs. Quem escuta os discos ao vivo das bandas do nordeste está habituado a ouvir esses nomes. Trata-se do sujeito que grava o show e que no dia seguinte colocará à venda o CD com a apresentação, de modo que o fã possa continuar se emocionando no conforto de seu lar.

Essa tradição é antiga. Ainda nos anos 90, Chiquinho da Discofran de Viçosa (CE) fazia suas gravações e as lançava em vinil. Com a chegada do CD e o consequente barateamento da gravação e reprodução, a moda pegou. Hoje em dia, praticamente todos os shows são gravados, no que pode ser classificado como institucionalização da pirataria, apesar de muitos não se considerarem pirateiros, mas divulgadores. Tanto que não é preciso pagar nada para a banda, basta um OK do dono da casa de shows e dos artistas.

Enquanto um Biquini Cavadão leva uma carreira inteira para lançar um disco ao vivo repleto de equívocos, os Aviões do Forró têm mais de duzentos "ao vivos" para download em sua comunidade no Orkut, todos relevantes, pois raramente o grupo repete músicas em seus shows. E a qualidade das gravações é surpreendente. Segundo Rodolfo Cezar, de Fortaleza, ela não depende apenas de quem grava. "Digo isso por experiência própria. O som da festa influi muito." Mas na grande maioria dos casos, a relação custo-benefício é satisfatória.



Como esse mercado está em plena ascensão, foi criada a Associação dos Gravadores, que exige um mínimo de dois anos de experiência e comprovação da qualidade das gravações. Gustavo Parente, de Salgueiro, Pernambuco, explica a importância da criação desse orgão. "O esquema foi criado a partir de uma discussão na comunidade 'Rede Forrozão N.1'. Com o gigantesco aumento das pessoas que se dizem gravadoras, os 'fulanos cds' que trabalham com profissionalismo se sentiram prejudicados por essa máfia nascida no Orkut. Sem um pingo de noção de áudio, esses caras se humilham só para ganharem alguns alôs durante o show e se acharem 'os estourados'." De acordo com a Associação, se o gravador for cadastrado, a qualidade é garantida.

Com a chegada do Orkut e a consolidação das redes sociais no Brasil, a distribuição das gravações deu um salto enorme. Os gravadores têm suas próprias comunidades, onde são tratados como autênticas celebridades, com direito a fãs e admiradores. A maioria dos gravadores da nova geração começou a trabalhar com isso em busca de fama, para ouvirem seus nomes nos shows e conquistar o prestígio dos amigos, para depois se profissionalizarem.

Convém frisar que esse hábito ainda está circunscrito ao norte do país. Quando artistas do sul vão se apresentar lá, não costumam permitir as gravações, com o velha e batido argumento da quebra de direitos autorais. Além de não evitar a pirataria, essa atitude burra impede os fãs de desfrutarem de performances únicas, que costumam ser feitas em momentos de especial inspiração.

Além da vantagem óbvia de usar a pirataria como divulgação, as bandas saem ganhando também na questão do teste de repertório. Todo artista sabe que no primeiro disco a escolha das músicas costuma ser mais fácil, porque a banda vem de um intenso período de shows e já sabe de antemão as músicas preferidas do público. A chamada "síndrome do segundo disco", que muitas bandas de rock enfrentam, deriva dessa deficiência do teste ao vivo.

Ao disponibilizarem seus shows em CDs que são vendidos logo após a apresentação, o teste do repertório ao vivo continua vai além do show. E ainda há o efeito multiplicador de que, além da pessoa que adquiriu a cópia, outras pessoas ouvirão as músicas e banda ganha um feedback perfeito. Tão perfeito que ao entrar no estúdio para gravar o próximo disco oficial, já sabe qual o setlist preferido pelos fãs.

No final todo mundo sai ganhando. Artista, vendedor de CD e público. É o tipo da coisa que dá certo quando se tem uma atitude pragmática e respeito mútuo entre produtor e consumidor, pois no final das contas, são pessoas lidando com pessoas. É como Victor, da dupla Victor & Leo, afirmou em entrevista recente: "Não enxergamos fãs, enxergamos pessoas e cada pessoa tem sua história de vida, suas vitórias, seus traumas, suas virtudes. Quando estamos diante de uma multidão, sabemos que cada pessoa ali pagou um ingresso para nos assistir, se deslocou de casa ou do trabalho e veio em busca de emoção. Não há uma multidão, mas milhares de 'cada um'".

PS do Timpin.: Deixo aqui meus efusivos agradecimentos a Flaviane Torres do blog do muido, cuja ajuda foi fundamental para a elaboração desse texto.

Comunidade do Gustavo CDs

Comunidade do Rodolfo CDs

Podem baixar à vontade, que é tudo legal.



originalmente publicado no site Bis

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Britney Spears - Gimme More versão TECNOBREGA

Brit se acabando no ritmo paraense

sábado, 2 de maio de 2009

Tem socialite no funk

por Melina Dalboni

A mais nova funkeira do Rio não vem dos morros. Cunhada de João Gilberto e filha do conhecido dentista Olympio Faissol, a cantora Heloísa Faissol anda fazendo sucesso no Youtube com a música "Dou pra cachorro". Aos 38 anos, depois de ter sido estilista, acrobata, atriz, pintora e bailarina, a socialite resolveu cantar funk safadinho, chocando a família e o high society.

- Estou sem falar com minha família desde o ano passado. Tenho um irmão diplomata que está achando que eu estou doente - conta, às gargalhadas.

Heloísa vem sendo chamada de a nova Narcisa Tamborindeguy, de quem ela até admira a "autenticidade", mas acha que falta pé no chão. O outro apelido é Heloísa Quebra-Mansão.

Mas, por que agora a música? Por causa do Chico Buarque, ela exclama. Na tentativa de conquistá-lo, Heloísa escreveu textos, cartas, poemas, músicas e pintou quadros. Sua última cartada foi arriscar um rap: "Miau, miau, miau, pode até fazer au-au, pois só vou me sossegar quando eu te conquistar".

- Quando conheci o Chico, eu o admirei muito. Além de ser um grande artista, ele é ótimo pai, respeita a ex-mulher, é encantador, ético, ajuda outros artistas, ajuda os pobres, daí fiquei meio obcecada por ele. Tive até que fazer terapia porque minha vida parou - conta.

Admiradora de Preta Gil, Rita Lee e Carla Bruni, a funkeira que só tem "Dou pra cachorro" atualmente no repertório, atrai críticas. O DJ Marlboro disse que entende "quando os meninos da comunidade lançam músicas pornográficas, apesar de não concordar", mas uma patricinha ele não aceita porque "é muita queimação de filme para o funk". Por outro lado, Heloísa recebe o apoio de Tati Quebra-Barraco, com quem pensa em gravar.

- Por causa dessa música, ficam falando que eu sou burra. Mas deixa pra lá, um dia eu vou mostrar minhas outras letras, que falam de política, amor, crise, drogas - diz, enquanto fuma um... Marlboro.

Ela gostaria de gravar um CD e se apresentar no Via Show:
- Com a música, eu me encontrei. Não tenho dinheiro para fazer um CD agora, mas não vou desistir, mesmo sem o apoio da família.

Seu filho, João Artur, de 12 anos, entende o trabalho, ela diz.

Desde que começou a cantar seu primeiro e por enquanto único funk (Versão original: "Tô fervendo, tô no ponto, eu dou no primeiro encontro/ Se você for tarado, vem que eu gosto do babado"), as relações com a família estremeceram:
- Minha mãe mandou um recado de que me perdoou. Mas, de quê? Eu não matei, não roubei, não traí, não menti, mas eles não compreendem meu trabalho. Meu pai é um que vem com um discurso moralista.

João Gilberto, pai de sua afilhada Luisa Carolina - filha de sua irmã, Cláudia Faissol - também parece não aprovar.

- Soube que ele disse "A Lolozinha está muito doente. Precisa ser tratada". Ficou horrorizado - conta - Mas o João é um amor.

A carioca, que agora frequenta o Morro da Babilônia, no Leme, quer distância das "festas chatas" e dos "papos fúteis".
- O high society é falso. As pessoas mais simples falam na lata: "O cara transava mal pra caramba, parecia uma britadeira". As socialites dizem, com um sorrisinho: "Ai, ele é um amor". Às vezes, nem transam, nem gozam, mas têm que representar aquele personagem lady.

Depois de ser chamada de "Helouca" pelos antigos amigos, ela decidiu só andar com artistas e a turma da comunidade.

Formada pela Escola Suíço-Brasileira, em Santa Teresa, Heloísa estudou com Letícia e Tonico Monteiro de Carvalho, Marisa e Maria Rita Magalhães Pinto e Jaqueline De Botton. Aos 17 anos, foi morar em Paris, onde se formou em moda pela Esmod. Quando voltou ao Rio, resolveu abrir um ateliê, que durou pouco mais de um ano. Então estudou marketing, acrobacia, circo, pintura e namorou Duda Lacerda Soares, Andy Lundgren, João Pellegrino e o editor Charles Cosac.

Hoje, apesar de cantar para quem quiser ouvir que dá pra cachorro, conta que "está na seca".
- Eu adoraria estar dando pra cachorro porque quem dá pra cachorro deve estar feliz. Mas eu sou muito romântica. Escrevi essa letra inspirada numa amiga que estava dando mole para todos os homens num bar, e no Nietzsche, meu cachorro, que ficava trepando na perna de todo mundo que ia lá em casa.

A música que toca nas rádios é uma versão mais light da que roda na internet. Os DJs acharam o funk pesado demais e pediram uma letra mais leve.
- A maioria das pessoas para quem eu mostro a música cai na gargalhada. É quase uma coisa infantil, é lúdica, debochada.

Heloísa tem na gaveta o "Funk da galinha": "Cócórócócó, vem, me roça o fiofó/ Cócórócócó, te dou mole, dou sem dó".

Resta saber se as rádios vão pedir uma versão mais leve...

fonte: O Globo

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